domingo, 22 de abril de 2007

Porto Alegre, janeiro de 1962, 19 anos

Entrevista ao Blog da Cacilda, 22/04/2007

http://cacilda.folha.blog.uol.com.br/arch2007-04-01_2007-04-30.html

Pouco mais de dois anos atrás, fiz uma longa entrevista por e-mail com o hoje governador José Serra, para um texto sobre política e arte. As respostas que deu me deixaram pasmo. Ajudam a entender por que está sempre na Roosevelt, nos Satyros, e por que ele escolheu secretários como Carlos Augusto Calil e agora João Sayad. É um raro político que estima e, de fato, viveu o teatro, a arte.
Separei três passagens, que seguem abaixo, pela primeira vez.

Por favor, faça um relato da experiência como protagonista da montagem universitária de "Vento forte". Você ainda recorda algum trecho da peça? E o enredo? Por favor, descreva como foi o primeiro contato com a platéia: A tensão foi grande? Chegou a estudar Stanislavski ou Brecht? Como foram os ensaios?

Para mim representou uma experiência fascinante. Até hoje é bom lembrar. Sempre me volta aquela sensação agradável da época. "Vento forte pra papagaio subir" era o nome da peça, de autoria do Zé Celso. O personagem principal era um rapaz, numa pequena cidade do interior: a mãe doente e possessiva (só a voz), a namorada, a irmã que sustentava a casa e o melhor amigo. Ele louco para ir embora, vir para São Paulo, que é o que faz no final, depois de uma tempestade com ventania forte. Embora a cidade não fosse mencionada, para nós era Araraquara, terra do autor. E o personagem reunia algo da história do próprio Zé. A tensão não foi tão grande diante da platéia, embora a peça abrisse comigo sozinho no palco, como num sonho, ouvindo a canção, repentinamente interrompida por uma tempestade. Teatro não é como política. Você não encara o público, a platéia está escura e você representa um personagem que não é. É mais fácil, por incrível que pareça. Eu não conseguiria, na política, interpretar um personagem, mesmo que se tratasse de interpretar a mim mesmo.

A apresentação foi feita no festival de teatro da juventude organizado pelo Paschoal Carlos Magno, ele um grande personagem, com notável bom gosto para o teatro e uma extraordinária capacidade de organização. Foi em Porto Alegre, janeiro de 1962. Eu tinha 19 anos.

Fiz também uma apresentação na TV de “Amor à prova dos nove”, do Millôr, e, num auditório enorme, do monólogo do “Orfeu”, do Vinícius.

Fomos de ônibus para Porto Alegre, junto com gente de São Paulo, inclusive a Regina Duarte, acompanhada pela mãe. Era uma gracinha, bem menininha, tímida, e ganhou um prêmio, com o “Auto da Compadecida”. Do festival, participavam o Plínio Marcos, o Sérgio Mamberti, a Dina Sfat. Ela foi integrando o elenco da engenharia do Mackenzie –como não tinha mulheres, arranjaram a Dina, que, salvo engano, era funcionária do centro acadêmico ou algo assim. Creio que o Sérgio também não estudava engenharia, mas estava com o grupo, que levou “Os fuzis da mãe Carrar”, do Brecht. A atriz principal, a mãe, era a Iara (que morreu naquele naufrágio do Bateau Mouche). Na montagem, eles cantavam hinos dos republicanos espanhóis, que aprendi e lembro até hoje. Na Poli também não tinha mulheres (só duas alunas) e incorporávamos mulheres de outras faculdades, mais uma das secretárias do grêmio, Ana Maria, aliás, ótima atriz.

Cheguei a estudar Stanislavski, de forma irregular, num seminário do Kusnet. E nos ensaios ele era o “método” adotado. Em diferentes ensaios, nos concentrávamos em diferentes aspectos da personalidade e das relações do meu personagem. Cada dia um. O texto não mudava, mas mudavam a personalidade e as relações, cada vez concentradas numa possibilidade. Uma neurose, mas criativa.

Por favor, faça um breve relato da experiência com os jograis, sob a direção de Fauzi Arap. Augusto Boal viu uma das apresentações: A presença causou tensão em você e nos demais atores? Como era a relação do grupo de teatro da faculdade com o CPC? Foi o teatro universitário que o aproximou do movimento estudantil? O teatro o ajudou de alguma maneira a atingir desenvoltura em oratória?

Os Jograis eram ótimos, a melhor coisa que me aconteceu na faculdade. Era gostoso, bem-humorado, textos ótimos, poesias lindas. Eu aprendi poesia assim. Aliás, para mim, sentir uma poesia implica ler em voz alta. Só assim é possível senti-la, compreendê-la. Só assim não fica trivial. Eu achava o Fauzi um gênio, meio estranho (para começar, porque ele estudava engenharia), a generosidade artística encarnada, um apóstolo, extraordinário imitador de atores e atrizes (por exemplo, na impostação da Cacilda Becker, era imbatível). Conheci o Boal nessa época (não ele a mim, certamente). (não me lembro de ele ter assistido aos jograis)

Não foi o teatro que me aproximou do movimento estudantil, mas este, a política, que me afastou do teatro, a partir de minha eleição para a presidência da UEE, no final de 1962. Mas lá organizamos o CPC, e o Fauzi fez uma montagem extraordinária de uma peça escrita por ele mesmo junto com estudantes do CPC, que era uma espécie de versão paulista do “Auto dos 99 por cento” da UNE (não sei quem tem o texto). Mas eu não era ator mais. Viajávamos para o interior, com a UEE Volante, apresentávamos a peça, dança, poesias, e depois fechávamos com um comício pelas reformas. Só aí eu discursava. Creio que a experiência dos jograis e do teatro ajudou a melhorar a impostação da voz.

Algumas perguntas mais pessoais (se achar invasivas, por favor, não se sinta obrigado a responder). Sua mulher foi bailarina: Você gosta de dança? Você a conheceu no palco, no Chile? Que coreografias viu?

Eu tenho paixão por ballet, adorava o jeito de caminhar, a postura, das bailarinas. Conheci minha mulher numa festa de aniversário de uma amiga comum e, quando vi que era bailarina, me aproximei mais. “Carmina Burana” (ela fazia a deusa Fortuna, entre outros papéis na mesma coreografia), “A Mesa Verde”, a mais maravilhosa peça artística antibélica a que já assisti, “O Pássaro de Fogo”, “Despertar da Primavera”, “Lago dos Cisnes”, “Catalise”...