quarta-feira, 31 de março de 2004

Quarenta anos esta noite

José Serra

Publicado n'O Estado de S. Paulo, 31/03/2004

– Presidente, nós pensamos que o pedido de estado de sítio deve ser retirado. Vai suprimir as garantias constitucionais e fortalecer a direita. Vai acabar se voltando contra o povo.

– Olha, jovem, tu não precisas te preocupar, porque antes de vir aqui já tomei providências para retirar. Não deixem esta notícia circular, pois vou anunciar depois de amanhã. Acho bom vocês continuarem falando contra. Mas o estado de sítio não era para agredir vocês, não era contra o povo, não. Ao contrário. Eu sei das dificuldades que tenho... Agora vou lhes dizer uma coisa: eu não vou terminar este mandato, não.

O presidente era João Goulart, e o jovem, eu mesmo, num domingo de outubro de 1963, num apartamento de parentes da família Goulart no Leblon. Estavam lá uns oito dirigentes da Frente de Mobilização Popular (FMP), formada pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), UNE, Frente Parlamentar Nacionalista, oficiais militares, intelectuais, Leonel Brizola e Miguel Arraes. Eu era presidente da UNE e o então deputado Brizola, ao abrir a reunião sigilosa, surpreendeu-me sugerindo que eu expusesse os motivos de nossa rejeição ao estado de sítio que Jango solicitara ao Congresso.

De pé, num ambiente menos tenso, Jango disse depois numa roda:

– Sabe, Serra, os militares vivem me dizendo que a tua UNE e tu mesmo e teus companheiros mereciam umas boas palmadas, mas eu defendo vocês. Sabias? Eu defendo.

A partir desse dia ficou claro para mim que o governo não iria se agüentar.

Ele não parecia fazer apenas uma previsão pessimista, mas revelava também uma espécie de propósito: não concluir o mandato.

Jango enviou o pedido de estado de sítio ao Congresso, como previa a Constituição. Mas havia o objetivo de promover, na seqüência, um regime de exceção, apresentado nominalmente como transitório, como todo golpe que se preza.

Assim, após a aprovação do estado de sítio pelo Congresso, o governo federal pretendia intervir na Guanabara e em São Paulo, afastando Carlos Lacerda e Adhemar de Barros, então governadores desses Estados. O Congresso seria desativado e seriam convocadas eleições para dali a seis meses, de vereador a presidente. Jango assegurava que não se candidataria. Nesse ínterim, seria preparada uma reforma constitucional, nela previstas as “reformas de base”, a ser submetida a plebiscito.

A proposta do estado de sítio fora transmitida alguns dias antes aos dirigentes da FMP numa reunião durante a madrugada, onde estavam dois vice-presidentes da UNE, Duarte Pereira e Marcello Cerqueira (eu estava na Bahia). Eles deram a única opinião claramente discordante, argumentando que aquele processo desembocaria na quebra da legalidade democrática, num golpe.

Suspeitávamos que o esquema militar do governo acabaria fazendo três outras intervenções: no CGT, na UNE e em Pernambuco, então governado por Miguel Arraes. Convenhamos: suprimir as garantias e liberdades constitucionais e substituir governadores por generais resultaria no quê? Num Estado Novo janguista, era a minha conclusão.

No decorrer dos dias os principais integrantes da FMP foram ficando contra a medida. Mas, de fato, ela não prosperou porque Jango não encontrara suporte militar. Tentara pôr um golpe em marcha e não conseguira. Não logrou sequer prender Carlos Lacerda, que havia dado uma entrevista ao jornal Los Angeles Times dizendo que “os nossos amigos americanos não deveriam dar nenhuma ajuda ao governo criptocomunista de João Goulart”, acrescentando que o presidente não terminaria o mandato. Jango instruiu militares para que detivessem Lacerda antes mesmo de o estado de sítio ser aprovado, mas não deu certo. Era grave que tivesse tentado e sintomático que, de tão bisonho, não tivesse conseguido.

Jango não tinha visão estratégica nem gosto pelo cotidiano da administração.

Mesmo antes desses episódios não revelava disposição para exercer plenamente o governo. Nem era fácil fazê-lo. A inflação era a mais alta da história; a economia estava estagnada, as greves salariais se multiplicavam e a oposição jogava no “quanto pior, melhor”.

A radicalização política crescia com a crise econômica, a guerra fria, o fantasma (e a influência sobre a esquerda) da revolução cubana e a paranóia anticomunista. O governo norte-americano não podia admitir a hipótese de ter outra Cuba na América Latina, ainda mais do tamanho do Brasil – uma hipótese fantasiosa, mas útil como instrumento de mobilização social da direita.

Eu saí daquela reunião no Leblon com a tarefa de ir às rádios – Mayrink Veiga e Nacional, como se costumava naqueles tempos – e pedir a retirada do pedido de estado de sítio, era o combinado. Na mente, tinha uma convicção: o governo não iria durar.

Essa interpretação combina meu sentimento naquela época com uma percepção posterior mais aprofundada dos fatos. Lembro-me, em todo caso, do que me dizia Samuel Wainer – íntimo, confidente e conselheiro de Jango – quando ele era colunista e eu editorialista da Folha de S.Paulo, após minha volta do exílio: a partir de fins de 1963, o presidente da República se dispusera a deixar não a vida, como Getúlio, mas o cargo, para entrar na história como um líder popular injustiçado. Deposto, quem sabe um dia seria chamado de volta, aí sim, como Getúlio.

Um exemplo da falta de empenho de Jango em melhorar a sorte de seu próprio governo foi a saída, em dezembro de 1963, do ministro da Fazenda, Carvalho Pinto, ex-governador de São Paulo, político discreto e conservador, que inspirava confiança no empresariado. Houve pretextos – principalmente a postulação de Brizola para ocupar o cargo de ministro da Fazenda -, mas a razão objetiva dessa medida foi o prestígio do ministro, que já aparecia como presidenciável. Seu fraco substituto, Nei Galvão, foi o terceiro a assumir a Fazenda em menos de um ano.

Em janeiro de 1964 Jango regulamentou a Lei de Remessa de Lucros do capital estrangeiro, aprovada no Congresso em 1962, mas pendente dessa regulamentação. No mesmo mês, atendeu à nossa reivindicação de indicar um estudante, no caso o vice-presidente para Assuntos Educacionais da UNE, Duarte Pereira, para integrar o Conselho Federal de Educação.

Grandes manifestações de massa organizadas em conjunto com o CGT foram programadas para março e abril, a começar pelo comício da Central do Brasil, no Rio, na noite de 13 de março.

No comício, que reuniu cerca de 200 mil pessoas, Jango anunciou a encampação da única refinaria de petróleo privada existente e o decreto que permitia desapropriar, para fins de reforma agrária, terras às margens das rodovias federais. Durante a tarde, eu havia assistido a uma reunião em que o governo pediu opinião sobre a extensão das margens de estradas suscetíveis de desapropriação. Era uma questão nova, poucas horas antes de a medida ser anunciada. Perguntei qual seria a extensão total das áreas nas diferentes hipóteses. Não se sabia. Como seria previsível, opinamos pela extensão maior.

Jango preocupava-se que eu repetisse no meu discurso o tom e o conteúdo considerados radicais de um comício anterior, na Cinelândia, no aniversário da morte de Getúlio. Mas minha ênfase foi outra: a denúncia das articulações golpistas da direita.

O comício aqueceu, de um lado, as expectativas de ascensão do movimento de massas; de outro, acelerou a preparação, já em marcha, do golpe para derrubar Jango e assustou ainda mais as classes médias urbanas, temerosas de um regime comunista, de uma república sindicalista, ou seja lá o que fosse.

Tão temerosas que, em São Paulo, uma semana depois, na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, houve tanta gente quanto no comício da Central do Brasil. Havia palavras de ordem que, para a multidão, soavam democráticas:

– Reformas sim, mas dentro da Constituição. Se não, não! Assim ecoou na Praça da Sé a voz cavernosa do presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, aliás do PSD de Juscelino, partido que já estava desembarcando da nau governista ameaçada.

Na véspera, eu fora a um debate na televisão Tupi com dois deputados de São Paulo que eram a favor da manifestação. Para falar contra, eu e um ex-deputado do PCB, homem tímido. Por isso, a discussão polarizou comigo.

Nenhum outro debate de que participei desde então foi tão agressivo. Num intervalo, o Lima Duarte, presente no estúdio, alertou-me de que, na porta da emissora, havia manifestantes dispostos a agredir-me. Chamamos, então, os estudantes da Casa do Politécnico, em cuja faculdade eu estudava, e ficamos em maioria.

No debate, argumentei que a manifestação serviria a um golpe, explorando a boa-fé das pessoas. Boa-fé democrática e religiosa, porque propalava a idéia de que o belzebu comunista iria implantar a ditadura do proletariado, o materialismo e a perseguição aos seguidores de Cristo.

O susto da classe média cresceu com outro evento definitivo: a assembléia dos marinheiros no Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro. Eles se declararam em reunião permanente. Sua “rendição” foi negociada por ordem presidencial, em troca de uma anistia imediata, o que levou à renúncia do ministro da Marinha. Jango parecia esforçar-se para somar contra si a maioria dos oficiais das três Armas, devido aos abalos na hierarquia militar.

Indo mais longe, na antevéspera da consumação do golpe – cuja data correta é 1.º de abril e não 31 de março – Jango discursou para sargentos e suboficiais do Exército na sede do Automóvel Clube do Rio de Janeiro. Eu, Marcelo e Duarte ouvimos o discurso dentro de um táxi parado na Avenida Delfim Moreira. De duas uma: ou Jango estava se despedindo do governo ou iria de fato “tomar o poder”. Tudo em questão de horas. Nossa intuição e razão apontavam para a primeira hipótese.

Depois do episódio do estado de sítio, as forças cujo principal braço político era a UDN caminharam mais firmes e mais depressa na idéia de derrubar Jango. Não iriam perder a oportunidade. Há 18 anos elas tinham contas a acertar com o chamado “varguismo” e suas derivações ou associações ao longo do tempo (república sindicalista, comunismo, etc.). Tinham perdido pelo menos cinco oportunidades de fazê-lo. Depois que a ditadura do Estado Novo caiu, no pós-guerra, seu candidato a presidente foi derrotado pelo marechal Dutra, apoiado por Getúlio. Na eleição seguinte, ganhou o ex-ditador. Depois que ele foi levado ao suicídio, seu vice, Café Filho, cooptado pela direita, acabou sendo derrubado quando se preparava para impedir a posse de Juscelino, eleito com o apoio do PTB de Vargas. Com Jânio Quadros, elas ganharam a eleição de 1960, mas perderam com a estapafúrdia renúncia do presidente aos sete meses de governo. Tentaram impedir a posse de Jango, mas Brizola, com seu movimento a partir do Rio Grande do Sul, Estado que governava, frustrou esse propósito.

Depois da tentativa do estado de sítio, o arco das alianças para derrubar Jango ampliou-se. No começo de 1964 já incluía o governador de Minas, Magalhães Pinto, que era da UDN, mas adversário de Lacerda e mais próximo a Jango. Nas últimas semanas de março, a aliança antijanguista já abarcava a maioria do PSD e incorporava intelectuais e jornalistas que, nos dias seguintes ao 1.º de abril, viriam a ser grandes opositores das arbitrariedades e da repressão, como a equipe do jornal Correio da Manhã.

A adesão de Magalhães ao golpe ficara clara em fevereiro, quando a Frente de Mobilização Popular programou um ato no Centro do Professorado em Belo Horizonte. Os dirigentes da Frente saíram do Rio em avião fretado. Eu fui em avião de carreira e levei comigo o Betinho – o Herbert José de Sousa -, então coordenador nacional da Ação Popular, organização em que eu militava.

No vôo, encontramos o José Aparecido, nosso amigo e secretário estadual em Minas:

– Eu sei que foram vocês da AP que deram a idéia desse ato. Não é o momento.

Deus queira que não haja encrenca.

Houve encrenca. Quando chegamos ao local, uns 15 minutos depois dos outros, encontramos uma praça de guerra, tomada por contramanifestantes. Não pudemos entrar no prédio nem, evidentemente, fizemos questão de nos identificar.

Dirigentes da FMP haviam sido agredidos com pancadas e pedradas, Entre eles Brizola e o deputado Paulo de Tarso.

Seguimos para o Palácio da Liberdade, onde Magalhães Pinto nos recebeu na hora:

– Governador, como a Força Pública do governo do Estado pode ter permitido essa arruaça?

– Foi uma surpresa. Até a mulher de meu secretário da Segurança, coronel José Geraldo, está entre os que marcharam contra o governo federal. Não pude fazer nada.

– Mas por que o senhor não faz alguma coisa agora? Qual o quê! O fato mais grave daquela noite, no entanto, não foram as agressões das forças paramilitares nem a cumplicidade do governo estadual com elas. O que mais nos perturbou foi nossa caminhada pelas ruas daquele bairro: senhoras nas calçadas, nas janelas, nos portões, velas acesas, rezando contra o perigo comunista. Percebemos que a chamada direita encontrara uma base social de peso em setores das classes médias! Eu havia assumido a presidência da UNE em julho de 1963, aos 21 anos. Apesar de não ter conseguido trancar a matrícula na Politécnica de São Paulo, mudara para o Rio de Janeiro, morando na própria sede da UNE, na Praia do Flamengo. Voltava para São Paulo nos fins de semana, ou quando houvesse alguma prova importante na faculdade.

Até então eu tinha presidido a União Estadual de Estudantes de São Paulo, onde aprendera a fazer discursos, a debater em assembléias e a organizar movimentos de massa e atividades culturais (uma das grandes prioridades das entidades estudantis da época). Mas não tinha experiência nas questões políticas nacionais. De fato, minha única experiência de debates mais ardidos fora, curiosamente, com o jornalista Ruy Mesquita, uma vez na televisão e outra no auditório do Sedes Sapientiae, faculdade feminina da PUC de São Paulo e reduto da Ação Popular. Nessa noite, cerca de 90% dos estudantes estavam do nosso lado e contra o Ruy e faziam questão de vocalizar esse fato.

Não houve tempo, porém, para grandes treinamentos. Tive de aprender fazendo.

Já no primeiro mês houve dois testes difíceis.

O primeiro, uma CPI no Congresso Nacional sobre a UNE, a subversão e o pretenso ouro de Moscou que, segundo seus requerentes, financiaria o movimento estudantil. Atravessei dois dias de depoimentos e interrogatórios, enfrentando parlamentares experientes, cujo único propósito parecia ser garantir manchetes escandalosas à grande imprensa. Entre eles, Raimundo Padilha, ex-integralista e partidário ativo dos alemães na última guerra (viria a ser governador do Estado do Rio, nomeado pelo regime militar):

– Tenho nove filhos, graças a Deus todos anticomunistas. Quantos anos tem o José Serra? Vinte e um? Mesmo assim, peço licença para tratá-lo como adulto.

A partir daí, diante de perguntas agressivas ou colocação de cascas de banana para fazer-me escorregar, eu retrucava:

– Mas deputado, o senhor que tem nove filhos anticomunistas, como pode pôr armadilhas para um jovem de 21 anos?

A segunda prova foi o comício em homenagem a Getúlio Vargas, pelo 9.º aniversário de sua morte, na Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro. A fim de que eu não falasse muito no começo, atrasamos a chegada ao palanque caminhando entre a multidão, em vez de entrar por trás. Por isso, coube-me o último discurso antes do pronunciamento do Jango.

Ao lado dele e dos ministros militares, critiquei a possível nomeação do general Amaury Kruel para o II Exército, afirmando que ajudara a derrubar Getúlio e tinha tendências golpistas. Acusei o embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon, de interferir em assuntos internos da política brasileira e manifestei oposição à idéia, que já circulava, de intervenção federal em São Paulo e na Guanabara. Isso tudo azedou nossa relação com Jango, que só reencontrei naquela reunião no Leblon.

Eram tempos agitados. Um eminente deputado da UDN mineira, Bilac Pinto, formulara uma espúria teoria sobre a “guerra revolucionária”, da qual evidentemente seríamos parte integrante, e os textos de seus discursos delirantes percorriam quartéis e reuniões de civis assustados.

Aliás, demonstrações de violência mesmo só existiam do lado da direita. No Congresso da UNE em que fui eleito, em Santo André, grupos paramilitares metralharam o estádio que abrigava os trabalhos e soltaram bombas de gás lacrimogêneo no plenário. No Mackenzie, em São Paulo, atiraram ácido no ministro da Educação, Paulo de Tarso. O prédio da UNE sofria metralhamentos periódicos nos primeiros meses de 1964. Já relatei os acontecimentos de Belo Horizonte.

Não havia exercícios de violência de nosso lado nem existiam preparativos nesse sentido. E se essa idéia existisse, não haveria como materializá-la.

No movimento estudantil, éramos fruto das liberdades democráticas e percebíamos que, sem elas, não iríamos longe. Queríamos ampliá-las e não suprimi-las.

Para impedir algum golpe, contávamos com a mobilização de massas e com o alardeado “dispositivo militar” do presidente Goulart. Temíamos que esse “dispositivo” tomasse iniciativas como as que poderiam levar a uma aventura janguista, mas esperávamos que fosse capaz de dissuadir as articulações de golpes da direita.

Foi da solidez daquele “dispositivo” que passei a duvidar depois da crise do estado de sítio. De mais a mais, nos primeiros meses de 1964 as turbulências que envolveram a hierarquia militar só poderiam enfraquecer, como o fizeram, as ações do tal “dispositivo”.

General, estou indo para o Amazonas, mas há tantos rumores de movimentações golpistas. É claro que o senhor as conhece todas. Tenho dúvida se viajo ou não.

– Pode ir, meu jovem, não tem problema. Quase todos esses rumores são falsos. Os que não são referem-se a iniciativas que estão sob controle.

Foi precisamente com o general Assis Brasil, chefe da Casa Militar da Presidência e coordenador do “dispositivo”, que começou minha história na fase final do golpe. No início da Semana Santa eu estava viajando para Manaus, onde a UNE promovia um seminário sobre os problemas da Amazônia. De lá iria para Belém, onde se realizaria outro encontro com estudantes de toda a América Latina. Cruzei com o general no Galeão.

Mais do que sua resposta formal, o que diminuiu minha inquietação foi ver o comandante do “dispositivo” em trajes esportivos, embarcando numa boa para o descanso da Semana Santa.

Mas a tranqüilidade durou muito pouco. Dormi uma noite em Manaus, jantando com os congressistas, visitei o mercado, onde comprei tartaruguinhas e filhotes de jacarés – eram tempos pré-ecológicos – e, antes de começar o seminário, tive de retornar, em face da intensificação dos rumores que não incomodavam o general Assis.

O pior deles vinha de Minas, para onde fui, fazendo uma reunião de dirigentes e integrantes da AP. O aeroporto de Belo Horizonte já estava esquisito, repleto de policiamento, e temi ser detido. A reunião foi para discutir o que fazer diante da perspectiva de golpe iminente.

Em seguida passei por São Paulo, para rever minha namorada. Marcamos um encontro nos jardins do Museu do Ipiranga:

– Acho que é a última vez que nos vemos assim. Vem um golpe,Yara, vai acontecer algo ruim. Tiram o Jango e caem em cima da gente.

– E o que você vai fazer?

– Não temos nenhum esquema de proteção no Rio. Espero poder vir para São Paulo esconder-me, até conseguirmos funcionar de novo, não sei bem em que condições.

Antes de seguir viagem, deixei os animaizinhos amazônicos aos cuidados do Sérgio Motta. No Rio, na segunda-feira à noite, dia 30 de março, depois de ouvir o discurso de Jango no Automóvel Clube, decidimos ir até a sede dos Correios, a fim de obter informações. O diretor-geral, coronel Dagoberto Rodrigues, era homem de confiança de Jango e de Brizola.

Nessa noite, descobrimos que existia nos Correios um sistema de escuta telefônica e o coronel já sabia de movimentos de tropas em Minas Gerais. Ou seja, o golpe já estava em marcha! De volta à sede da UNE, aprovamos uma nota de denúncia do golpe e de chamado à resistência, escrita por Duarte, e decidimos deslocar partes da diretoria para o Rio Grande do Sul e Pernambuco, onde, além do Rio de Janeiro, acreditávamos que haveria resistência mais sólida. Isso também reduziria o risco de que toda a diretoria fosse presa. No dia seguinte, tornou-se pública a notícia do “levantamento” do general Mourão Filho.

À tarde e à noite desse dia fui duas vezes ao Palácio das Laranjeiras, uma vez com o Marcello Cerqueira, outra com o Betinho. Lá dentro, o general Assis disse que estava tudo bem. Juscelino nos disse que a situação era grave, sem mencionar o que propusera a Jango. O general Pery Bevilacqua, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, entrou e saiu com ar de quem propusera medidas salvadoras. Numa escrivaninha pequena oitocentista, redigi com o Betinho uma nota conclamando à greve geral dos estudantes, que não chegou até a imprensa, sendo divulgada em emissoras de rádio.

Por volta das dez da noite participei, no prédio da UNE, de uma reunião no teatro do Centro Popular de Cultura, que iria ser inaugurado brevemente. Sua estrutura de madeira ainda não havia sido pintada e o cheiro do ambiente era bom – lembro-me dessa sensação até hoje. O general da reserva e historiador Nelson Werneck Sodré fez um relato otimista da situação militar, sendo aplaudido pela platéia inquieta.

A questão central era: o que fará o general Amaury Kruel, comandante do II Exército? Disso dependia a sorte do golpe. Ele trairia Jango? Não, achava Sodré. Falei disfarçando meu ceticismo a respeito da posição de Kruel. E voltei para as rádios (Como se soube depois, já naquela noite Kruel propôs a Jango fechar o CGT e a UNE, mudar ministros e reprimir a esquerda, e Jango recusou na hora).

Numa das emissoras, estava falando o deputado Roland Corbisier, mais ou menos assim:

– Em 1955, o Brasil assegurou a legalidade democrática (referia-se ao contragolpe do general Lott, que tinha garantido a posse de Juscelino). Em 1961, ao derrotar os golpistas, avançamos na formação de um governo nacionalista, democrático e popular, combatendo o latifúndio e o imperialismo (ou seja, fazendo a revolução burguesa). Agora, derrotando a sedição, vamos entrar na etapa socialista.

Zuleika Allembert achou-me na rádio pelo telefone para dar informações não muito otimistas sobre a situação e sugerindo que eu amenizasse as palavras do Roland, quando ocupasse o microfone. A análise feita por ele era fantasiosa, mas iria assustar ainda mais as classes médias mineiras e paulistas...

Já de madrugada fui com o deputado Max da Costa Santos para a casa de amigos dele, no Jardim Botânico, onde passaríamos o resto da noite.

De manhã bem cedo, às 5 ou 6 horas, o Max me acordou com a notícia da adesão de Kruel ao golpe.

Fomos aos Correios, a fim de encontrar dirigentes da FMP e obter informações sobre o quadro militar em todo o País. O prédio estava protegido por tanques.

 A confusão era grande. Em certo momento, o coronel Dagoberto disse ter interceptado uma ligação do general Cunha Mello, comandante das forças que deveriam barrar as tropas que vinham de Juiz de Fora, dizendo que precisava de combustível...

O coronel começava a limpar suas gavetas quando o Marcello achou que os tanques que protegiam o prédio começaram a virar seus canhões para o prédio.

E estavam! Por isso, saímos os dois por uma porta lateral, e fomos a pé até a base aérea do Santos Dumont, à procura de seu comandante, brigadeiro Francisco Teixeira, legalista e boa figura:

– Brigadeiro, por que o senhor não manda seus aviões dispersarem as tropas que vêm de Minas?

– Olhe, bastaria um só avião para dar conta disso. Mas a ordem do presidente que eu recebi foi que mantivesse os aviões no chão.

– É possível que um avião nos leve a Porto Alegre?

– Não, sem ordens superiores não posso autorizar.

Fomos para o Ministério da Marinha. Chegamos até o ministro – o almirante da reserva Paulo Mário, que Jango acabara de nomear – sem que ninguém nos perguntasse o nome. O ministro parecia ainda mais por fora e desarmado do que nós. Onde estava o dispositivo militar do Jango? Não sei exatamente como, mas pouco tempo depois rumamos numa Kombi para a Baixada Fluminense, a fim de encontrar dirigentes do CGT e trocar idéias sobre o que fazer. Onde? Na casa do deputado Tenório Cavalcanti, em Caxias, que, por motivos alheios à política, era verdadeira fortaleza, com portões de aço à prova de balas. O deputado Demístocles Batista, o Batistinha, poderoso dirigente ferroviário, analisava:

– O PSD entrou no golpe. O Mazzilli (presidente da Câmara dos Deputados) assume. Vão negociar condições até a eleição do ano que vem, a fim de eleger o Juscelino. O golpe vai se “pessedizar”.

Foi a pior noite de minha vida. Para mim, tem sido sempre doloroso lembrar e falar sobre aqueles momentos, sobre o golpe, sobre o que veio logo antes e depois. Até hoje tenho um mal-entendido com esse pedaço de minha vida e da nossa história.

Pelo rádio, soube da invasão e do incêndio da sede da UNE. Já estávamos sendo procurados. E se fôssemos presos naquela casa? Para onde ir, o que fazer? Que confusão ia dar no Brasil. Tínhamos contribuído para isso? Quanto? Seria possível viver clandestino, reagrupar as forças? E se não fosse, teria cabimento sair do Brasil? Não poderia terminar a faculdade. E meus pais? Bem que eu poderia ter irmãos, não ser filho único.

Ao acordar, imaginei por instantes ter sonhado, de que não estava onde estava e de que o 1.º de abril tinha sido apenas um pesadelo. Depois, compreendi melhor por que essa dúvida é uma quase trivialidade na literatura. Não é por falta de imaginação dos escritores. É porque ela acontece mesmo, diante de cada tragédia. E eu estava vivendo a minha primeira tragédia, aos 22 anos recém-feitos.

De manhã disse ao Marcello:

– Vamos embora logo. Olha, devo estar sendo injusto, mas receio que podem nos entregar. E se é para sermos presos, que seja noutro lugar.

A entrada na cidade do Rio foi o pesadelo diurno, infelizmente inesquecível.

Olhos ardendo pela falta de sono, sol, calor, e a multidão caminhando para comemorar o golpe, naquela que teria sido a réplica fluminense da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, marcada para o dia 2 de abril, e que se transformou na festa da derrubada de Jango. Mais tarde, pela televisão, assistimos à comemoração, animada por locutores cretinos, e vimos as pessoas celebrando o golpe “democrático”.

Fomos para um apartamento vazio do sogro de um amigo de São Paulo, onde eu às vezes ficava. Na porta, me aguardava um assessor:

– Tem um sujeito estranho que ficou passando por aqui. Acho perigoso vocês ficarem.

Duvidei, mas como arriscar? Marcello então sugeriu:

– Vamos para a casa de um amigo lá perto da Vila (Isabel).

Na Vila, foi aquela decepção. Não que o amigo estivesse ausente ou que tivesse mudado de endereço. Não, a casa tinha sido derrubada, e tão perfeitamente que custou descobrirmos o que tinha acontecido.

Ir para São Paulo? Além do risco da viagem, havia o fato de que o general Kruel tinha motivos pessoais para não guardar nenhuma simpatia por mim.

Procuramos então o Jacob Kligerman, estudante de medicina, “Partidão” até a alma e namorador nas horas vagas. Com esse objetivo, mantinha uma garçonnière na Lapa – perto do Dops, paciência – onde ficamos vários dias.

Eu vestia uma camisa que o Max da Costa Santos me havia emprestado na manhã do dia 1.º, que me caía desajeitada. Troquei-a por outra pior ainda, de um amigo que era uns 20 centímetros mais baixo. Finalmente, tive a pequena satisfação, no meio daquela rota de fuga, de ganhar duas camisas do Jacob, que era mais alto e encorpado.

Grandes jornais do Rio publicaram fotos da UNE incendiada, entre elas uma foto de Josef Stalin, afirmando que adornava a parede de minha sala atrás da mesa de trabalho. Ficava me perguntando se os historiadores do futuro iriam acreditar nessas e noutras farsas.

Apesar de relativamente calmos, com autocontrole, estávamos desarticulados, sendo procurados e sem lugar seguro para ficar. Por isso, alguém sugeriu que buscássemos proteção numa embaixada. Um deputado do PTB da Guanabara, Paulo Alberto Monteiro de Barros (hoje mais conhecido por seu pseudônimo de Arthur da Távola), entrou em contato com Juscelino, que pediu ao embaixador da Bolívia que nos abrigasse. O Paulo foi primeiro e mandou um amigo, o Toninho Cavalo (ele mesmo, o técnico de futebol), encontrar Marcello e a mim num posto de gasolina. Ao ver chegar um homem grandão, sem jeito de amigo do Paulo, nos afastamos rapidamente de carro e ele foi atrás, confirmando nossa impressão de que era da polícia. Não lembro como chegamos a um entendimento, mas o fato é que acabamos entrando na embaixada.

Lá fiquei durante mais de três meses. Os salvo-condutos iam saindo, o pessoal viajando, mas eu ia ficando. O ministro da Guerra, general Costa e Silva, dizia ao embaixador:

– Salvo-conduto para esse rapaz, não.

Depois de algum tempo, quase só, quando cansava de ler, distraía-me na janela, contando o número de fusquinhas que transitavam pela rua. Finalmente liberaram o documento. Em La Paz fiquei um mês, morando num apartamento com o Neiva Moreira e o José Maria Rabelo. Em seguida, parti para a França, com uma bolsa para um curso de Economia do Desenvolvimento, obtida pelos dominicanos de São Paulo.

Lá perdi a namorada e a paciência de ficar fora do Brasil. Voltei clandestino, via Uruguai, em janeiro de 65. Permaneci em São Paulo, “guardado” por Maurício e Beatriz Segall.  Não saía de dia, apenas à noite e limitadamente, sem ver a família, que ignorava minha volta.

A intenção era retomar a vida normal ou a luta política. A frustração não tardou: havia “vigilância de quarteirão” em torno da casa de meus pais e os companheiros mais próximos da AP foram presos numa reunião em São Paulo, à qual, diga-se de passagem, eu tinha insistido em ir, mas eles não haviam concordado por motivos de segurança. No primeiro aniversário do golpe, o general Costa e Silva esbravejou num discurso que, finalmente, o Brasil ficara livre de estudantes subversivos que ofendiam generais nos palanques.

Por isso tudo, deixei novamente o Brasil, dessa vez consciente de que seria por mais tempo. Pretendia concluir meus estudos e tornar-me professor de Economia. Antes de partir, encontrei toda a minha família na casa de uma tia. Sabia que dificilmente veria novamente minha avó e meu avô, minhas paixões de infância e adolescência.

No ano seguinte, a Auditoria Militar de São Paulo, condenou-me a 3 anos de prisão. Motivo: eu teria voltado do exterior com propaganda subversiva na bagagem, antes do golpe. O fato de que, até então, eu nunca tivesse viajado ao exterior parecia não ter tido importância.

Só pude regressar ao Brasil, temporariamente, depois de prescrita a pena, em meados de 1977, quando morava nos Estados Unidos, em Princeton. Voltei definitivamente em 1978. Tinha 36 anos de idade, dos quais havia passado 14 no exterior.

A política no Brasil havia empobrecido. Entre os jovens de minha geração que tinham maior vocação para a ação política, grande parte desinteressou-se, outra parte sofreu o exílio, uma terceira, as prisões, as torturas e mesmo a morte. Os avanços materiais observados nos 21 anos de ditadura poderiam perfeitamente ter sido obtidos no regime democrático; os retrocessos e os custos humanos, sociais e políticos, evitados.

Há dois ou três anos recebi a cópia de uma longa carta manuscrita que enviei, ainda na embaixada, relatando minha vida e minha situação ao advogado que então me assistia, Evaristo Morais Filho. Ela não mostra abatimento, mas surpresa e indignação pelo que tinha acontecido. Recebi também a cópia de um filme mostrando minha participação no comício de 13 de março, feito pelo Leon Hirtzman, que era do CPC da UNE.

O texto, a caligrafia, o filme fizeram-me evocar com emoção um conto de Jorge Luis Borges: o escritor encontra sentado num banco, às margens de um rio, um jovem que, para seu espanto, descobre ser ele mesmo. O jovem ignora quem é seu interlocutor, mas percebe o afeto daquele homem mais velho que, no fundo da alma, gostaria de contar-lhe tudo sobre a vida, para que ele a vivesse melhor. É o que senti ao rever a mim mesmo, no papel e na imagem, tanto tempo depois.

José Serra foi presidente daUNE, deputado federal, senador e ministro da Saúde