domingo, 4 de outubro de 2009

Finalmente!

José Serra

Artigo publicado no jornal O Globo, em 04/10/2009

As primeiras Olimpíadas da América do Sul serão realizadas na cidade do Rio de Janeiro, em 2016 – 23 anos entre o sonho e a realidade. Lembro quando a idéia foi levantada, há 16 anos, por João Havelange e Roberto Marinho, quando o prefeito era César Maia. A primeira tentativa não foi bem sucedida, mas começou a pavimentar o caminho da vitória em Copenhague. Na segunda tentativa, após perder a disputa para as Olimpíadas de 2012, o Comitê Olímpico Brasileiro prometeu voltar. Voltou, e o Rio levou, com uma campanha coordenada pelo governador Sérgio Cabral e pelo prefeito Eduardo Paes e apoiada pelo presidente Lula.

Vitória do Rio, vitória do Brasil. As Olimpíadas reforçarão a visibilidade internacional do nosso país, valorizando sua principal vitrine – esta Cidade Maravilhosa. Serão um incentivo poderoso para aumentar e diversificar, desde já, as atividades esportivas olímpicas no Brasil. Alavancarão um grande volume de investimentos, concentrados principalmente no Estado do Rio. Começarão a gerar muitos e muitos empregos bem antes de 2016. E, acima de tudo, farão bem à autoestima dos cariocas e de nós todos.

O Rio merece. Acho que o país tem uma dívida com a cidade desde quando lhe retirou a condição de Capital e promoveu, em meados dos anos 70, uma fusão improvisada e mal concebida em sua origem. Ao mesmo tempo, o Brasil precisa do Rio para afirmar sua identidade nacional, revigorar sua cultura e encurtar a distância que ainda nos separa do futuro de país desenvolvido.

São Paulo colocou-se à disposição do Rio, desde o início, para cooperar em tudo o que pudesse. Em abril deste ano, enviei um projeto de lei à Assembléia Legislativa, atendendo às diretrizes do Caderno de Encargos do COI e do COB, que se comprometia com o encaminhamento de propostas legislativas estaduais para garantir a execução dos compromissos firmados.

Nos próximos dias, será enfatizado que a preparação de um evento dessa magnitude exigirá muitos recursos, um planejamento extremamente complexo e uma grande capacidade executiva das três esferas de governo, sem falar na necessidade de uma boa coordenação entre elas.

Não seria esperar demais de um país muito centralizado, onde não sobra dinheiro público, e a capacidade de planejar e executar é escassa? A resposta é não.

O Brasil dará conta do desafio por uma razão singela, que parece, mas não é tautologia: não podemos falhar. O economista e professor Albert Hirschman notou, há muitos anos, num livro clássico sobre desenvolvimento econômico, que alguns países menos desenvolvidos não conseguiam conservar direito suas estradas, mas eram capazes de ter companhias aéreas seguras e eficientes. Isso porque uma estrada em mau estado não chega a comprometer definitivamente a economia, nem a segurança, nem a situação de um governo. Já uma companhia aérea...

A nosso favor, diga-se que temos um certo gosto pelos empreendimentos “impossíveis”, nas áreas mais diferentes.

Historicamente, podemos lembrar a preservação da unidade no nascimento do Brasil como nação independente, numa América Latina marcada pela fragmentação política. Hoje em dia, conquistamos um padrão de medicina avançada similar ao dos países desenvolvidos – basta lembrar que somos o segundo país em transplantes de órgãos, ou que temos a melhor campanha contra AIDS do mundo em desenvolvimento. Ou, ainda, que produzimos aviões de alta qualidade.

Conseguimos organizar – e bem –, apesar da correria, a primeira Copa do Mundo do pós-guerra; idem a Eco 92 e os Jogos Panamericanos de 2007. Tudo isso no mesmo Rio de Janeiro, onde, aliás, vamos jogar e vencer, se Deus quiser, a final da Copa de 2014, num Maracanã modernizado.

A tarefa não será trivial. Exigirá formar um comitê organizador ampliado e de grande competência e recorrer ao que existe de melhor em matéria de planejamento urbano, no Brasil e no mundo. Fazer projetos sensatos, longe da megalomania, do desperdício e dos sobrepreços. Em relação aos recursos, quero deixar aqui uma sugestão: a formação de um fundo para as Olimpíadas baseado em nossas exportações de petróleo, em especial do pré-sal, se até lá já for extraído. Esse fundo temporário seria constituído em moeda estrangeira, para financiar despesas realizadas nessa moeda. É uma idéia a ser discutida para além de interesses partidários, eleitorais ou regionalistas.

A hora é do Rio, mas a torcida é de todo o Brasil.