segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A Casa de Minas em São Paulo

José Serra

Pronunciamento na inauguração da Casa de Minas Gerais em São Paulo, em 14/09/2009

Estou muito contente por participar desta inauguração, que na verdade apenas reitera vínculos históricos, laços que se traduzem em hábitos alimentares, costumes em comum e mesmo identidades com relação ao nosso País e com relação ao resto do mundo. A história de Minas Gerais começa com os moradores de São Paulo, que em busca do ouro avançaram pelos sertões, fundaram arraiais que se transformaram em vilas e, mais tarde, em cidades.

Em muitos dos grandes momentos da brasilidade vivida em Minas, São Paulo esteve presente. Assim, na Inconfidência Mineira houve a presença importante de pelo menos um paulista: o Padre Toledo, natural de Taubaté, mas morador da antiga São José Del Rei, hoje Tiradentes. Por outro lado, entre as musas da Inconfidência esteve Bárbara Heliodora, mineira de sangue paulista, pois descendente da família Amador Bueno.

Amador Bueno foi aclamado como rei de São Paulo, evidentemente recusou a hipotética coroa, mas tudo isso constituiu uma das primeiras manifestações nativistas do Brasil. Por outro lado, até o século XVIII nossos dois Estados formavam uma única unidade política, eram um só e, mesmo depois da separação em dois territórios distintos, essa unidade persistiu, porque não se desfaz com uma penada o que se construiu com muita luta e o que se teceu ao longo do tempo nas malhas do coração.

Assim no século XIX, com o declínio do ciclo do ouro, o movimento migratório chegou a inverter-se e os mineiros passaram a povoar, até mesmo fundar cidades em território paulista, principalmente nas áreas fronteiras do Estado de origem. Na verdade, o povoamento do Oeste Paulista, que é uma região tão progressista, foi obra desses bandeirantes que voltaram de viagem, na expressão de Antônio Tavares de Almeida. A fusão das duas culturas se deu em tal intensidade que, ao leigo, fica difícil identificar quem chegou primeiro: se o virado à paulista ou o tutu à mineira e o feijão tropeiro. A moda da viola, já tradicional nas cidades mais antigas de São Paulo, também ganhou reforço com o ponteio da viola mineira.

E ainda hoje é muito significativa a presença de mineiros em nosso Estado, em praticamente todas as atividades de trabalho agrícola, nas universidades, das artes plásticas aos setores produtivo, comercial e financeiro. Mineiros e paulistas se identificam também no mesmo espírito cosmopolita e desenvolvimentista sintetizado nas Minas Gerais com Juscelino Kubitschek, um dos maiores presidentes brasileiros.

Eu não sou tão antigo assim, mas conheci o Juscelino pessoalmente - e dele eu ouvi uma vez um ensinamento, para o qual no momento não dei muita bola, não dei muita importância, mas que depois, ao longo dos anos, passei a valorizar cada vez mais, até hoje. Ele estava analisando a sucessão presidencial de 1965 para mim, e perguntou se nós o apoiaríamos. Na época eu era líder estudantil e disse que não. E ele disse: “Olha, eu sou o bom. O fulano que vocês querem apoiar é o ótimo. Só que, com muita freqüência, o ótimo é inimigo do bom. Vocês querem o ótimo, não vão nem pelo bom”. E meses depois tivemos o golpe militar, não por causa nossa, evidentemente, mas foi uma lição muito interessante, que sempre me marcou muito.

A Juscelino, como a muitos outros mineiros, São Paulo deve muito do seu progresso, com a instalação da indústria automobilística no ABC e com o impulso que deu, em geral, à industrialização paulista. Juscelino não era apenas uma pessoa dinâmica, simpática, otimista, mas também contagiou, com todas essas qualidades, a sociedade brasileira, propiciando um salto de qualidade no progresso nacional e na própria integração do Brasil. São os anos que o Brasil crescia, isto sim, a taxas que hoje são asiáticas, que estão longe das nossas, a 7%, 8% ao ano.

Mas quando falamos de grandes brasileiros de Minas Gerais não posso deixar de citar aqui o nosso Tancredo Neves, avô do governador Aécio. Um homem público único, que foi uma das grandes lideranças para a reconstrução do Brasil do Estado de Direito. Para tanto, não temeu pôr a própria vida em risco, à semelhança de Tiradentes, outro herói brasileiro como ele, coincidentemente morto no dia 21 de abril, quase dois séculos antes. Com isso, quero dizer que Minas Gerais e São Paulo nunca deixaram de estar juntos, pois em termos afetivos o Espaço de Minas Gerais é todo o território de São Paulo.

Nunca deixaram de estar juntos, estão juntos e vão estar juntos. É significativo, já que eu falei aqui do Tancredo, lembrar a aliança política de São Paulo, naquela época, com Minas Gerais. Do nosso querido governador Franco Montoro e do governador Tancredo Neves. Eu também, por coincidência, estive presente, talvez no primeiro contato político que fizeram com vistas à sucessão no Brasil, lá em Araxá, ainda em 1983. E sou testemunha da importância que esta aliança trouxe para a restauração da democracia no Brasil e abertura de um novo futuro para todos nós.

Quero lembrar também a importância que Minas Gerais dá, nos últimos anos, através da administração competente, eficiente e de grande qualidade do nosso governador Aécio Neves. Que inovou em muitos aspectos a administração brasileira e abriu um horizonte de otimismo para aquela que é uma das regiões líderes do desenvolvimento brasileiro, e que será cada vez mais nas próximas décadas, porque nós estamos assistindo a um deslocamento do eixo dinâmico da economia brasileira para o Norte de São Paulo, Minas, Goiás, Mato Grosso, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

É importante também lembrar que Minas e São Paulo, juntos, constituem uma força apreciável. Basta mencionar que nós temos perto de um terço da população brasileira; que 43% do PIB (Produto Interno Bruto) nacional é gerado em Minas e São Paulo; e que a União arrecada em Minas e São Paulo 49% dos seus tributos. Isso mostra a importância desse dois Estados, a importância da sua união e a importância de atuarem juntos para conter a volúpia centralizadora federal que hoje prevalece no nosso País.

Quero também mencionar, como exemplos da nossa integração, não apenas a atuação conjunta em função dos grandes problemas brasileiros, mas também a integração entre as duas economias, constituída principalmente por um fator que está passando despercebido e que tem uma importância enorme, que é a derrubada das fronteiras fiscais. Nós estamos derrubando as fronteiras fiscais entre Minas e São Paulo, inclusive com acordos, protocolos, entendimentos que fizemos recentemente em Minas e que são de uma importância enorme para uma nova ordem tributária no nosso País.

Mas quero também saudar esta parcela simbólica do território mineiro fincado aqui em São Paulo, parcela esta que passará a constituir, a partir de hoje, um centro para a realização de negócios, para a promoção do turismo, para a divulgação da cultura do Estado de Minas Gerais no Estado de São Paulo.

Quero dizer que considero, também, que esta casa passará a ser nossa casa: uma casa mineira dentro da nossa. Simbolicamente, foi muito bem escolhida. Situa-se na esquina da Rua Minas Gerais com a Avenida Paulista. Este endereço sintetiza bem a unidade dos nossos estados para o bem do Brasil. Meu caro Aécio, sucesso por essa iniciativa e muito obrigado por tê-la tomado. De coração.