sábado, 18 de julho de 2009

Dez anos sem Franco Montoro

José Serra

Pronunciamento na missa que marcou os dez anos da morte do governador Franco Montoro, em 16/07/2009

Minha palavra, primeiro, é a respeito deste Mosteiro de São Bento, que, com 400 anos de existência, está profundamente ligado à História de São Paulo. Aqui se abrigou Amador Bueno da Ribeira, quando os paulistas o aclamaram rei, em 1641, na primeira manifestação nativista em terras brasileiras. Aqui, também, tivemos a primeira instituição do Brasil a alforriar os seus escravos, quase duas décadas antes da Lei Áurea. Durante a revolução de 1924, esta casa, este Mosteiro, abriu generosamente as suas portas para acolher seis mil civis que se encontravam desabrigados. Nas décadas de 1960 e 1970, quando o País passava por um dos seus momentos mais difíceis, corajosamente este Mosteiro acolheu muitas pessoas perseguidas pela ditadura. Aqui, portanto, é uma casa onde se expressa um sentimento de nacionalidade, um compromisso com a liberdade, um espírito aberto, mas, sobretudo, um exemplo de ações efetivas de solidariedade.

A solidariedade e a fé são marcas do Mosteiro de São Bento e do seu Colégio. Em um certo sentido, estas marcas se identificam com a trajetória do nosso querido Franco Montoro, que aqui fez o seu curso secundário. Depois, na Faculdade São Bento, que foi a semente da PUC, a Pontifícia Universidade Católica, formou-se em Filosofia. Aqui ele se casou, e aqui, juntamente com muitos de nós - e muitos de nós hoje presentes - comemorou suas Bodas de Ouro. Me lembro disso até hoje, deve ter sido por volta de 1990.

Montoro foi um homem que, também a partir da sua formação nesta casa, dedicou-se inteiramente às causas da liberdade, da democracia, da solidariedade... – enfim, de um conjunto de princípios e valores que impulsionaram a sua vida pessoal e a sua vida política.

Tive a oportunidade de compartilhar um trabalho comum com o governador Montoro. Fui o seu secretário de Economia e Planejamento. De todos, era, talvez, o que vivia mais próximo dele. Quero dizer que, fazendo um balanço, o Montoro foi o homem público mais entusiasmado que conheci, capaz de dedicar o mesmo esforço de persuasão a uma grande multidão e a um pequeno grupo de militantes, preferencialmente jovens.

Há uma história que o Geraldo Alckmin lembra bem: em julho de 1988, nós estávamos indo para a Câmara de Vereadores de Cruzeiro, município do Vale do Paraíba. O Alckmin e eu acompanhávamos o Montoro, depois de percorrermos todo o Vale do Paraíba, empenhados na fundação e organização do PSDB nos municípios. Um trabalho difícil, porque só conseguimos a adesão de cinco prefeitos, e dois nos traíram depois – de maneira que ficamos com três prefeitos. Já era tarde, atrasaram-nos muito, não havia mais do que cinco ou seis pessoas no plenário, lá em Cruzeiro, entre elas o presidente do partido e o deputado da região. Quer dizer: em termos líquidos, apenas três pessoas. O Montoro foi o último a falar e começou dizendo algo assim: "Meus amigos, é o entusiasmo de vocês que nos motiva, que nos estimula numa luta, nesta luta para mudar o Brasil..."

Esse era o Franco Montoro.

Contrariando uma lei da política, ele entrou na vida pública bem moço. E nos deixou há dez anos, cinco ou seis décadas depois, mais idealista, mais lúcido e mais otimista sobre o futuro – também o contrário do que costuma acontecer. Ele pertencia a um grupo de pessoas que eu admiro muito: pessoas que, sabendo que vão morrer amanhã, são capazes de se dedicar, na véspera, a plantar uma mudinha de carvalho. No Congresso Nacional, na Assembléia Legislativa, na Câmara de Vereadores, foi sempre um legislador exemplar. À frente do Governo de São Paulo, mostrou também que era um grande executivo.

Quando ele assumiu o Governo, eu tinha chegado recentemente do exílio e não conhecia de perto as práticas da política chamada convencional. Por isso, na ocasião, talvez nem eu, nem outros, tenhamos valorizado na medida justa o seu estilo de formar uma equipe, procurando escolher os melhores e ignorando, ou resistindo de forma desassombrada, às pressões fisiológicas. A gente achava que era natural, que não havia um grande mérito nisso. Imaginem para quem, depois, nas décadas seguintes, conviveu de perto com a política brasileira...

Como disse, estive muito próximo dele, durante três anos, e notava, diariamente, um atributo, uma virtude: sua paciência infinita, sua tolerância para com os defeitos dos outros e as divergências dos adversários. Ele era incapaz de insultar alguém pela frente ou pelas costas. Respeitar o próximo era o seu modo de ser. Só ouvi uma vez Montoro dizer um palavrão, ao longo de uma convivência contínua de cinco anos, desde antes da eleição. E um palavrão merecido, que não vou repetir aqui, em uma casa de Cristo.

Montoro tinha, como comandante de equipe, uma qualidade rara e que ajudou muito no desempenho do seu governo. É mesmo uma qualidade rara, acreditem. Ele não competia com os seus subordinados – vibrava com os seus eventuais sucessos, não tripudiava sobre os seus fracassos e não centralizava a administração, embora soubesse cobrar resultados e fazer as mudanças necessárias, nos momentos adequados.

A propósito de erros e fracassos, quero lembrar aqui um jantar simples, um dos muitos que tínhamos com ele, a Dona Lucy e eu, na ala residencial do Palácio dos Bandeirantes. Estávamos no começo do governo e eu não tinha – e, infelizmente, ainda não tenho – a mesma natureza do Montoro, cujo ânimo sempre voava mais alto. Eu falava dos meus receios sobre o futuro da administração, comprometida pelo descalabro que herdáramos do governo anterior, pela crise econômica que corroía as receitas, pela demanda de serviços sociais à população desempregada e pela combatividade do funcionalismo, que tinha pressa em recuperar décadas de poder aquisitivo deteriorado.

Apesar de não ser dado à emissão de juízos e a conselhos – Montoro não fazia julgamentos nem era um homem de dar conselhos; dava exemplo – ele fez uma reflexão que eu tratei sempre de assimilar, e que acabei reencontrando muito tempo depois, em um poema de Rudyard Kipling, lembrado por Jorge Luis Borges: “não se perturbe muito, pois o êxito e o fracasso são impostores. Ninguém fracassa tanto quanto acredita, nem tem tanto êxito quanto imagina.”

A convivência diária no trabalho me permitiu também apreender pequenos detalhes do seu estilo de fazer política. Em relação à imprensa, por exemplo, ele exibia três particularidades invejáveis, que eu até hoje não consigo copiar direito, embora tenha me esforçado. Primeira: jamais reclamava de notícias injustas – e olhem que havia muitas notícias injustas sobre o seu governo, por erradas, por agressivas, por passionais. Segunda: não costumava falar em “off” com os jornalistas – aliás, o Franco Montoro não tinha “off”, era um homem “on”, sempre... O que ele dizia em um cochicho, tirando a forma, naturalmente, era o mesmo que dizia numa reunião ou num jantar com a Dona Lucy ou com o filho Andrezinho; não tinha “off” com o Montoro. Terceira: quando alguém o procurava nervoso para comentar ou reclamar de alguma notícia de imprensa, ele sempre respondia que não tinha lido – ele lera, claro, mas dizia que não tinha lido. Com isso, conhecia primeiro a opinião dos interlocutores, evitava fazer avaliações precipitadas e economizava conversas tensas e demoradas, que ele detestava.

Montoro nasceu conciso também. De fato, só perdia a proverbial paciência quando tinha que ouvir discursos longos nos palanques. Então, ficava louco da vida. Manifestava, embora sempre com muito boa educação, a sua pressa – e fazia comentários ao pé do ouvido que deliciavam os seus companheiros de palanque, como o Fernando Henrique, o Mário Covas, o doutor Ulisses Guimarães e eu próprio.

Quando Montoro completou 80 anos de idade, o jornalista Élio Gaspari lhe perguntou: “olhando para trás, qual foi o seu melhor momento na política? Algum de que se arrependa?”. Montoro respondeu: “eu me orgulho de duas coisas. Primeira, de ter iniciado a campanha pelas eleições diretas para presidente. Segunda, de ter sido o primeiro governante brasileiro a lutar obsessivamente pela descentralização dos poderes do Estado e pela participação da sociedade civil no processo de desenvolvimento”. Eram idéias consideradas inviáveis, na época, mas que hoje fazem parte do repertório obrigatório e do cotidiano da nossa vida política. E a outra parte da resposta de Montoro:

– Quanto ao arrependimento na vida pública, é coisa que não carrego comigo. Eu sigo um velho ensinamento do Padre Lebret. O importante é você se considerar um Zé Ninguém a serviço de uma grande obra. Eu sou um Zé Ninguém há 80 anos, mas posso olhar para trás com orgulho e para frente com esperança.”

Podemos acrescentar, ainda, ao seu balanço: nós todos nos orgulhamos muito de ter convivido com ele e de ter procurado seguir o exemplo de um homem que provou a verdade dos grandes sábios, como Buda, Maomé, Maimônides, São Francisco de Assis. A melhor forma de servirmos a nós próprios, e sermos felizes, é nos dedicarmos aos outros, diminuindo seus sofrimentos e lutando por sua felicidade.

Esse era o Montoro!