quinta-feira, 25 de junho de 2009

Vladimir Herzog

José Serra

Pronunciamento na inauguração do Instituto Vladimir Herzog, São Paulo, 25/06/2009

Quando eu era militante estudantil e imaginava que podia mudar o mundo no espaço de meia geração, aprendi um conceito que me entusiasmou: o de encarar o presente como história. Esta idéia dava sentido ao nosso ativismo político intenso, até agressivo, e às nossas esperanças: estar fazendo história ao promover transformações profundas na formação social brasileira. Depois, ao longo da vida e muito especialmente no período recente, aprendi outro conceito: o passado não fica em seu lugar; teima em estar junto ao presente. Não nos livramos dele, e estamos fadados, em cada momento de nossas vidas, a compreendê-lo, a reinterpretá-lo.

Esta cerimônia, em que se inaugura o Instituto Vladimir Herzog, ilustra esses conceitos com clareza. Estamos aqui num ato de criação, voltado para o futuro, testemunho de uma vontade de contribuir para o que há de melhor em nosso país. Mas fazemos isso evocando e procurando entender o passado, que se faz presente neste momento em que reverenciamos a memória de Vladimir Herzog. O Vlado, como era conhecido por seus amigos, associa-se ao futuro deste empreendimento, que pretende marcá-lo com o seu nome e, mais ainda, com a sua presença.

O que o Instituto virá a ser não depende do passado, mas sim do que seus organizadores e futuros colaboradores vierem a fazer. E creio, espero mesmo, que o nome de Vlado servirá como inspiração para idéias construtivas, como estímulo para pensamentos inovadores e boas iniciativas, sobretudo na área da mídia, cuja importância para a qualidade da democracia e do progresso não tem tido no Brasil uma contrapartida à altura em termos de reflexão, pesquisas e renovação de idéias.

Além das razões dos seus familiares e amigos, reverenciar a memória de Vladimir Herzog se justifica por motivos políticos e morais. Do ponto de vista político, sua morte nas mãos do aparelho repressor do regime militar foi um marco fundamental no processo de “distensão”, iniciado pelo então Presidente Ernesto Geisel, pois provocou uma confrontação decisiva com os setores mais duros do regime, que resistiam a qualquer forma de liberalização, por mínima que fosse – a chamada “abertura lenta, gradual e segura” anunciada pelo governo militar.

Não foi à toa que vários presos naquele período ouviram, dentro do DOI-Codi, o núcleo físico da repressão, a afirmação de que o objetivo da ação repressiva era identificar e derrubar autoridades supostamente condescendentes com a “ação subversiva”, ao patrocinar pequenos gestos de distensão, como a nomeação do próprio Vlado para a direção de jornalismo da TV Cultura.

Por certo, as coisas não mudaram de um dia para o outro: as detenções arbitrárias continuaram, as agressões e torturas contra presos políticos também, prosseguiram os assassinatos, mas o imenso clamor provocado pela morte de Vlado ajudou a quebrar a espinha dos setores mais radicais do regime e, assim, a manter vivo o lento processo da abertura programada.

Esse clamor foi também um marco, talvez o mais importante junto com as eleições de 1974, na mudança da forma de expressão política da sociedade, até então presa numa armadilha. A despolitização e o controle estrito da ação partidária, das manifestações de opinião e das lutas reivindicatórias pareciam deixar espaço apenas para dois caminhos: ou o conformismo e a omissão ou a ação política de contestação frontal e clandestina ao regime.

A reação da sociedade em conseqüência desse assassinato, que teve, com a presença de muitos no enterro e no culto ecumênico da Praça da Sé, seu primeiro grande ato público, mostrou que era possível fazer oposição e lutar por democracia de modo pacífico, quase silencioso, como o exigia o sentimento de luto. Mas, ao mesmo tempo, era uma oposição corajosa, firme e clara nos princípios que defendia e na condenação a qualquer forma de violência como instrumento de ação política.

E esse marco da resistência contra a ditadura e da luta pela redemocratização deve muito à pessoa de Vladimir Herzog, à sua figura moral. A tortura e o assassinato não se justificam em nenhum caso, mas o choque provocado pela morte de Vlado foi ainda maior, porque ele não era um combatente clandestino, armado e pronto para a confrontação, nem uma ameaça, por mínima que fosse, para seus algozes. Era um jornalista, alguém que atuava abertamente por meio da palavra, e fora detido quando exercia um cargo de confiança do então Secretário de Cultura do Estado, José Mindlin. Ou, talvez, exatamente por isso, representasse um perigo para o regime...

Afável, de modos tranqüilos, quase sempre sorridente, Vlado não tinha nada do agitador, do polemista, do líder autoritário. Essas características marcantes de sua personalidade contribuíram para ampliar a repulsa moral ao regime. Não haveria mais recuo possível: se Vlado, um homem sereno e sensato, cuja única arma era a palavra, tinha morrido vítima da repressão, ninguém poderia se sentir seguro, pois restara evidente que não haveria limites para a violência.

O ato na Sé mostrou que havia espaço para uma oposição moral, intelectual e política ao regime militar, que essa oposição expressava os sentimentos da imensa maioria moderada e democrática, e que seria tanto mais eficaz quanto mais ampla e mais pacífica fosse, superando as divisões ideológicas, sem perder a firmeza e a clareza do objetivo comum: a volta à democracia.

O culto e o enterro de Vlado foram atos de serena coragem, de superioridade moral da sociedade civil sobre um regime antidemocrático e cruel. Consolidou-se ali, naquele final de outubro de 1975, um movimento que levaria a sucessivas derrotas eleitorais do regime, ao ressurgimento da luta sindical, à volta paulatina dos exilados – eu entre eles, em 1977, depois de um exílio que para mim começou em 1964 –, à Lei da Anistia, em 1979, e, finalmente, à Campanha das Diretas ao longo de 1984 e à eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral, em janeiro de 1985.

Aliás, o sucesso eleitoral da oposição, abrigada no então MDB, o Movimento Democrático Brasileiro, nas eleições de 1974, havia sido o fator desencadeante da ofensiva dos setores mais radicais do regime sobre as forças oposicionistas que pregavam a participação ativa nas campanhas, apesar das intimidações e das limitações à "liberdade de expressão". A maior vítima do recrudescimento naquele período foi o PCB, o antigo Partido Comunista Brasileiro, que não pregava a luta armada, e que teve muitos dos seus dirigentes e militantes presos, torturados e assassinados.

A memória de Vlado certamente estava nas mentes de muitos daqueles que levaram adiante a luta pela democracia, sobretudo anonimamente, nos dez anos seguintes, porque ele já estava engajado intelectual e profissionalmente naquela mesma direção.

Vale lembrar um parágrafo escrito por ele, numa reportagem que investigou o clima reinante no mundo da cultura, no início da década de 1970.

O mergulho nas trevas do lamento e da impotência foi tão profundo que alguns se perderam pelos subterrâneos, ficaram na margem ou escolheram as viagens permanentes. Mas muitos cansaram de se lamentar, talvez com medo de se tornarem tristes heróis de uma “guerra acabada.” Estão voltando a querer, isto é, estão recuperando a vontade para voltar a fazer – apesar de tudo.

E Vlado voltou a fazer antes mesmo de aceitar a proposta da Secretaria de Cultura para assumir o comando do jornalismo da TV Cultura. No início de 1975, foi convidado para ser uma espécie de editor em São Paulo do jornal Opinião, um semanário criado no Rio por Fernando Gasparian, com apoio de várias lideranças intelectuais, especialmente de Fernando Henrique Cardoso. Naquele momento, o eixo da renovação da liderança política e da efervescência da sociedade civil, inclusive do movimento sindical, e das primeiras organizações de bairro, tinha se transferido para São Paulo.

Por iniciativa de Fernando Henrique, Vlado passou a se reunir semanalmente com um grupo de colaboradores, para definir uma pauta de temas que a grande imprensa, ainda sob censura, tinha dificuldade de abordar. Os mais constantes, como José Augusto Guilhon, Francisco Weffort e José Álvaro Moisés, revezavam-se com Fernando Henrique para publicar, toda semana, editoriais assinados sobre a conjuntura política nacional. As reuniões eram na rua Bahia, na antiga sede do Cebrap, o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, fundado em 1969 por um grupo de professores universitários, entre os quais, Fernando Henrique, José Arthur Gianotti, Elza Berquó e tantos outros, e que chegou – em certos momentos – a sofrer atentados e a ter alguns de seus pesquisadores detidos e encapuzados, quando não torturados.

O jornal Opinião estava aberto a todas as correntes de oposição e defendia os resultados da eleição de 1974 como um fator decisivo do processo de democratização. Mutilado pela censura, ainda assim conseguia publicar o que a grande imprensa não queria ou não podia divulgar. E, para enfrentar a censura, não adiantava se lamentar. Era imperativo tentar fazer, mesmo que fosse preciso valer-se de algum contorcionismo sintático. Vlado encarava o desafio com bom humor e tranqüilidade. Foi quando recebeu e aceitou, depois de hesitar um pouco, o convite para dirigir o jornalismo da TV Cultura, onde certamente imaginava continuar jogando aquele mesmo jogo em defesa da democracia e da liberdade. Em seu lugar, no Opinião, assumiu Paulo Markun, na época um garoto franzino e dono do maior bigode relativo que já vi na minha vida...

Markun era pouco mais do que um menino, e ficou muito marcado por esse emprego: ele sabe tudo sobre Vlado. Aliás, aprendi com ele o que tive em comum com o Vlado, que, como eu, também era filho de imigrantes – e ele mesmo um imigrante. Seu pai era um pequeno comerciante, como meu pai. Na Europa, os Herzog viviam onde hoje é a Croácia, mas durante a Segunda Guerra fugiram para a Itália. Vlado virou Aldo e passava por italiano. Dominou a língua rapidamente – melhor do que eu, que sou filho de italiano. Com isso, na prática, se tornou um imigrante italiano a mais no Brasil, quando desembarcou no Rio, primeiro, e depois em São Paulo. Nesta cidade, estudou no Colégio Roosevelt, alguns anos antes de mim. E, ainda por cima, também torcia para o Palmeiras...

Vlado gostava, como eu, sobretudo de cinema, literatura, música e teatro. O teatro era uma paixão tão grande que Vlado arranjou um lugar de figurante, como soldado romano, para assistir de graça às apresentações no Teatro Municipal. Devo dizer que eu também fiz incursões inconfessáveis pelo teatro, chegando a diretor do GTP, o Grupo Teatral Politécnico, quando estudava na Poli da USP.

O sonho de Vlado era ser crítico de cinema – melhor ainda, cineasta (que também sonhei ser), para filmar a saga de Canudos, sob o título “Antonio Conselheiro”.

Naqueles idos de 1975, havia, sim, algo de “subversivo”, no bom sentido da palavra, quando um jornalista assumia a direção dos telejornais da TV Cultura com a seguinte meta (nas palavras do próprio Vlado, que, apesar de tímido, era arrojado):

Um telejornal de emissora do governo também pode ser um bom jornal e, para isso, não é preciso "esquecer" que se trata de emissora do governo. Basta não adotar uma atitude servil.

Mas Vlado ficou menos de dois meses na chefia do Departamento de Jornalismo do Canal 2 e não conseguiu executar seu projeto. Sua gestão foi bombardeada desde o primeiro dia por colunistas áulicos e por parlamentares a serviço da extrema direita, que agiam como propulsores do conflito nos porões da ditadura, cujo objetivo era contestar a política de abertura do Presidente Geisel.

Vladimir Herzog acabou se tornando o elo mais fraco a cair nessa teia de indignidades tecida pela disputa feroz no interior do regime. Foi detido e morto estupidamente na prisão. Ele, que havia escapado de uma guerra mundial, um judeu que sobrevivera às perseguições nazistas e emigrara para um país mais livre... Ele, que tinha apenas 38 anos de idade.

Sua morte, contudo, não foi o fim da sua história. Vlado viveu na redemocratização. O passado no presente, onde se fazia história. E hoje, 34 anos depois, continua a viver na nossa memória. E continuará vivo, à medida que este Instituto Vladimir Herzog for dando seus frutos; à medida que os seus amigos diretos e indiretos, como eu, saibam fazer prevalecer, em nosso país, padrões de desempenho na vida pública que continuam escassos. Lembro alguns deles:

- a tolerância e o respeito na convivência política;
- o respeito intransigente aos direitos humanos e individuais;
- a clareza, a coerência nas propostas e, sobretudo, nas ações;
- a integridade de caráter na militância política e social;
- uma visão de médio e longo prazos para o nosso país, que mire suas peculiaridades e seus grandes interesses e que privilegie não apenas excelentes performances de mídia e de marketing, mas também ações e práticas que não contraditem, ponto por ponto, o que se alardeia.

Vlado é uma referência de firmeza intelectual, de caráter pessoal e de preocupação com a causa pública. Não podemos jamais esquecer o seu martírio, porque nos há de servir sempre de advertência. Mas o nosso presente e o nosso futuro precisam também do Vlado que descobriu entre nós a alegria e a energia para fazer um Brasil melhor.