quarta-feira, 24 de junho de 2009

O legado de São Paulo, Apóstolo

José Serra

Pronunciamento na celebração dos 2 mil anos do nascimento de São Paulo, apóstolo, S. Paulo, 24/06/2009

São Paulo, cujo nome de berço era Saulo de Tarso, deu seu nome à nossa cidade, ao nosso Estado e a esta sala. E até, indevidamente, a um time de futebol... (risos)

São Paulo é, para mim, uma das mais fortes referências, talvez a maior, do Novo Testamento. Com ele aprendemos o valor da disciplina que liberta. Com ele aprendemos que a falta de clareza escraviza o homem.

São Paulo foi, como sabem, um homem de fé e um homem de ação. O cristianismo, a Igreja e, por conseqüência, uma boa parte do que consideramos os valores ocidentais, devem muito às suas convicções, mas também ao seu senso de organização, às suas ações, que eram voltadas para o futuro.

Vivemos dias um tanto confusos, em que os valores se misturam; em que a ocorrência particular ameaça os princípios gerais; em que os princípios gerais parecem não dar conta das ocorrências particulares.

Mas São Paulo pode nos socorrer com sua clareza, elemento tão escasso na vida pública brasileira. Na vida espiritual, na vida em sociedade, na política em particular, é preciso que a flauta soe como flauta, que a cítara soe como cítara, como dizia o apóstolo. Porque assim, escreveu ele na Primeira Epístola aos Coríntios, as pessoas podem se preparar para a batalha.

São Paulo também nos tira do conforto a que podem nos conduzir os bons sentimentos. Ele nos fala que, além deles, é preciso haver doação genuína ao outro e à obra de Deus; nos fala de amor, de caridade, palavras com acentos um tanto distintos em português, mas unidas num só sentido na pregação do apóstolo. "Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, se não tivesse amor, seria como metal que soa ou como sino que tine." E, então, recebemos um belo ensinamento do homem que tanto contribuiu para consolidar os fundamentos de uma civilização:

O amor é paciente, é benigno(...); não é ambicioso nem busca seus próprios interesses; não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga com a verdade.

São Paulo nos convida à reflexão e à ação. Sabíamos, nas palavras de Deus e de seu Filho, que somos todos irmãos. Mas o que era palavra inspirada teve de se realizar como obra humana.

Essa foi a grande tarefa de São Paulo. Foi ele quem deu dimensão prática – e eu diria que também política – a essa fraternidade universal, limpando a palavra de todos os males que a maculam.

São Paulo organizou a Igreja de Cristo e nos ensinou a salvação por meio da conversão. Deus espera de nós que aprendamos a imensa e difícil tarefa. Não ignoro o descrédito em que está mergulhada, nos dias que correm, a palavra dos políticos, termo que força a anulação de diferenças, como se houvesse uma categoria especial de homens, particulares na sua desdita, a assombrar a sociedade. Isso, aliás, só nos diz como o mal permanentemente tenta os espíritos e as instituições.

As sociedades ocidentais souberam distinguir o Estado da religião em benefício, creio, de ambos. Mas eu lhes afirmo sem ambigüidades: não há um só ensinamento de São Paulo que não possa também ser útil à lei dos homens e, pois, ao exercício do poder. Ele é nosso guia. Nós dissemos, desde sempre, "sim" a Cristo, na esperança de sermos salvos. E digo "sim" a São Paulo, na esperança de servir ao próximo com prudência, eficiência e amor.