quinta-feira, 29 de novembro de 2001

Vilmar Faria: sociólogo e militante

José Serra

Publicado no jornal Folha de S. Paulo, 29/11/2001

Vilmar Faria era um sociólogo com todos os títulos, com larga experiência docente e rigoroso e competente

Para quem não conhecia: Vilmar Faria, em matéria de estilo, era o simétrico do recíproco do Sérgio Motta. O contrário do trator. Mas no conteúdo eles tinham muitas coisas em comum: mesma geração, idêntico "projeto" para o Brasil, capacidade imensa de trabalho, dedicação à vida pública, saúde complicada e lealdade extrema ao Fernando Henrique, como amigo e como político.


Vilmar era o assessor mais próximo e mais influente do presidente, com quem mantinha relações de amizade desde meados dos anos 60. Em Brasília, acompanhava, avaliava e contribuía para definir os rumos de toda a política social do governo.

Estou convencido de que essa política, consubstanciada nas ações de educação, treinamento profissional, assistência e seguro social, reforma agrária, saúde e até telecomunicações, será, no futuro, com a estabilidade, a grande marca positiva do governo Fernando Henrique. Mas sem o Vilmar os resultados não teriam sido os mesmos.


Dos meus amigos próximos que vieram do passado de lutas estudantis, da JUC (Juventude Universitária Católica), da AP (Ação Popular) e da UNE (União Nacional dos Estudantes), Vilmar foi um dos que se mantiveram mais ligados à vida e à produção intelectuais. Era um sociólogo com todos os títulos, com larga experiência docente, aqui e no estrangeiro, rigoroso nas pesquisas e competente para coletar e analisar números. Mas não deixava de lado o engajamento político, embora seu estilo discreto, pouco exuberante, e sua timidez ocultassem esse aspecto essencial de sua vida.


Quando cheguei ao Chile, exilado, aos 22 anos, reencontrei-o com a Regina, sua namorada de Belo Horizonte, ambos fazendo pós-graduação na Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais, a Flacso. Casaram-se em Santiago. Ante as carências financeiras comuns, decidimos os três morar juntos, dividindo um pequeno apartamento. Desde que, ontem cedo, fui avisado de sua morte, minha mente não parou de me transportar para aquele período, tão crucial para minha vida futura. Compartilhávamos de forma solidária as angústias do exílio, as esperanças e até as horas de lazer.


Refaz-se, de forma insistente, um mundo de pequenas situações, conversas e gestos, fruto daquilo que nunca envelhece em nós, a memória.

Era um homem sempre delicado nas relações com os outros, incapaz de agressões e, às vezes, sentia dificuldades até mesmo de se defender, nas raras oportunidades em que isso teria sido pertinente. Por esse motivo não se sentia confortável em situar-se na linha de frente de briga política. Em compensação era de uma solidariedade exaustiva com aqueles que, estando à frente, considerava seus parceiros na amizade e nas convicções políticas.

Comigo, por exemplo, sempre foi desse jeito. Na época da eleição para a UNE, ele se opôs aos que se opunham à minha candidatura sob o argumento de que eu era "paulista". No Chile, foi graças a ele que obtive meu primeiro emprego, na Flacso, como professor de economia para sociólogos. Ele e a Regina foram nossos padrinhos de casamento. Depois do exílio, em 1978, os dois nos ajudaram na instalação em São Paulo. Ambos nos acompanharam durante o governo de Franco Montoro.

Em Brasília, o Vilmar deu-me toda a cobertura possível quando ocupei o Ministério do Planejamento. E foi quem de fato me persuadiu a assumir o Ministério da Saúde, depois do convite do presidente Fernando Henrique.

Além disso, como especialista em pesquisas, inclusive de opinião, mineiro e conhecedor de minhas possibilidades e limitações, nunca deixou de se debruçar sobre as análises acerca dos desdobramentos futuros de minha vida política. Não perco apenas um amigo, mas um parceiro entusiasta na reflexão e na ação.

Uma curiosidade para os leitores da Folha. No começo dos anos 80, quando eu era editorialista do jornal, sugeri ao Octavio Frias e ao Otavinho que conversassem com o Vilmar, na época meu colega da Unicamp e do Cebrap, sobre a possibilidade de organizar um serviço próprio de pesquisas de opinião. Houve a conversa e o trabalho de assessoria do Vilmar. Essa foi a origem do Datafolha.

José Serra, 58, economista, é ministro da Saúde e senador licenciado pelo PSDB de São Paulo. Foi ministro do Planejamento (governo FHC).

segunda-feira, 3 de setembro de 2001

Movimento estudantil

José Serra

Depoimento em 03/09/2001

Para mim é impossível falar sobre esse período sem situar um pouco como era o Brasil então, a economia, a política. Parece muito difícil saltar essa parte e ao mesmo tempo pode virar uma analise mais intelectualizada e nem tanto um depoimento. Mas não tem outra solução, provavelmente haverá uma mistura entre ambos os aspectos.

Eu entrei na Universidade de São Paulo, na Escola Politécnica, em 1960. Vou citar alguns aspectos fundamentais do que era o Brasil na época.

Em primeiro lugar: nós tínhamos vivido um ciclo de expansão da economia inusitado na história brasileira. O Brasil, nunca na sua história, deu um salto tão acelerado quanto deu na segunda metade dos anos 50, que coincidiu com o governo Juscelino Kubitschek.

A região do ABC, antigamente, quando a gente ia para Santos de ônibus, tinha apenas um laboratório. Curiosamente, um laboratório farmacêutico (nunca imaginei na vida que eu iria ficar preocupado com laboratórios farmacêuticos), o Fontoura Wayts, e não tinha mais nada. Em cinco anos o ABC virou o principal centro industrial, não só do país como da América Latina, com uma classe operária nova, uma indústria nova, bens de capital, indústria automobilística, que não existia no Brasil ou eram indústrias muito incipientes. Isso foi um salto extraordinário.

Em segundo lugar: é preciso considerar que esse salto não foi acompanhado, simultaneamente, por um desenvolvimento social, de movimento sociais. Na verdade houve uma defasagem importante, como sempre acontece também. Houe um salto econômico, mas do ponto de vista social não houve um salto correspondente para alguma direção.

Não existia o movimento operário, por exemplo, do ABC. Simplesmente não existia. Era uma classe operária nova, vinda, grande parte, dos outros estados. E de fato a classe operária no Brasil, os trabalhadores, deram uma organização principalmente junto às empresas estatais – Petrobras, ferroviários, portuários. Havia alguma coisa na área têxtil e metalúrgica, no caso de São Paulo e do Rio de Janeiro, mas não era nenhum segmento politicamente mais forte.

Durante toda a minha vida estudantil – desde que eu entrei no grupo escolar Eduardo Carlos Pereira na Mooca até eu ser obrigado a largar a Politécnica –, nunca eu soube de uma greve de professores. Nada, não existia isso. Depois que eu voltei ao Brasil, era cotidiano, eu mesmo entrei em greve por vários meses, uma greve que não acabava nunca. Ou seja, não havia sequer movimento assalariado da classe média, que se mobilizasse.

Isso é importante de compreender para situar bem o papel do estudante universitário, que era diferente do que é no Brasil de hoje. De alguma maneira, o movimento estudantil substituía parte do movimento de classe média, que não existia. Os estudantes tinham um peso social – e acabava sendo político – maior do que hoje, apesar de que era menos de um décimo do número atual.

Em terceiro lugar: do ponto de vista da política, foi um período muito peculiar. Por três motivos. Primeiro, porque o ciclo econômico expansivo que acompanhou o governo do Juscelino Kubitschek se havia esgotado e se traduzido, principalmente, na aceleração da inflação, que em 1959 chegou a 60%, numa época que não havia indexação. Então, os salários, por exemplo, na área pública iriam para baixo. E salário mínimo ter reajuste anual é coisa para depois de 64. Não existia a idéia do salário ser reajustado anualmente. Coisa de fórmula salarial, quem introduziu foi o regime autoritário, curiosamente, em reajustes periódicos, estabelecidos por leis. Mas a inflação gera instabilidade e, junto com todo aquele crescimento, isso criou um certo clima de crise social.

Segundo, na política houve a eleição de Jânio Quadros. Eu votei no Jânio em 1970. Ele havia sido o governador de São Paulo, encarnava a moralidade e – hoje quando se fala disso o pessoal acha esquisito – o Juscelino era combatido como o regime da corrupção, do populismo, do compadrismo, enfim, era bastante marcado por aquelas características tradicionais da política brasileira. Jânio foi eleito e sete meses depois, numa tentativa torpe de golpe, temperada por questões de natureza mental, renunciou. E isso trouxe uma agitação enorme, porque houve uma tentativa de golpe, dos militares, de não deixar o Jango, que era vice, tomar posse. Vejam bem, Jango era vice, mas Jango foi candidato numa outra chapa, porque naquela época votava-se para presidente e para vice independente. O vice era eleito, coisa que hoje não é. Hoje o nome do vice não sai nem na cédula, não sai nem no computador.

Então, havia a questão se entrava ou não João Goulart. Jango era considerado um homem do sindicalismo, tinha sido ministro do Trabalho de Getúlio, tinha dado um reajuste no salário mínimo de 100%, tinha uma burocracia sindical, era anti-UDN, e tentou-se impedir a posse.

Nessa época, as primeiras agitações a que eu compareci foram as associadas à renúncia do Jânio. Ele renunciou achando que a população viria atrás para repô-lo. Mas a única preocupação, na verdade, foi a posse do Jango. Aldo Arantes, que era presidente da UNE, recém eleito, foi para o Rio Grande do Sul, integrou a cadeia da legalidade no rádio, feita pelo Brizola para garantir a posse do Jango. Isso foi um marco, a renuncia do Jânio. E também o fato de se conseguir frustar o golpe. Realmente a opinião pública foi contra aquele golpe, essa que era a realidade, e nós nos agitamos.

Eu me lembro que numa reunião no Colégio Mackenzie, onde estava participando, por exemplo, Abreu Sodré que era da UDN, bastante conservador e estava lá agitando pela posse do João Goulart. Abreu Sodré era até ligado ao Lacerda, contrário ao Jango, mas estava lá fazendo defendendo a legalidade.

O terceiro ingrediente importante para compreender a mistura dos anos 60 é a revolução cubana. Fidel Castro chegou ao poder no dia 1º de janeiro de 1959 e o impacto da revolução cubana foi extraordinário na juventude. Por que? Num primeiro momento, era a queda de uma ditadura, feita por uma meia dúzia de barbudos que tinha conseguido chegar à ilha, num iate pequeno, e derrubar a ditadura de Batista, que era execrável. Eu ainda era secundarista, mas a gente já execrava as ditaduras latino-americanas. Imagine-se na universidade, onde o pessoal era mais politizado. A revolução cubana foi considerada uma revolução democrática, contra a ditadura. Inclusive órgãos da imprensa conservadora de São Paulo apoiaram abertamente a tomada do poder e o regime nos seus primeiros meses.

Num segundo momento, foram surgindo pouco a pouco os conflitos de Cuba com os Estados Unidos. Assim a revolução cubana fez a seguinte sinalização: é possível uma ilha, uma população pobre, fazer mudanças profundas na estrutura econômico-social e na política e até desafiar os Estados Unidos. Isso foi um sinal: se lá é possível, com muito mais razão é no Brasil, que é um país grande, que não tem a mesma dependência de recursos naturais. Além do mais – isso já estava presente no subconsciente – um país que conseguiu se industrializar. O Brasil se industrializou – é exagero dizer que foi em cinco anos, cinco anos foi realmente a grande marca. Então, não dá para entender realmente o que acontecia no movimento estudantil sem a revolução cubana.

Então temos o crescimento, o salto econômico que tinha havido, a renuncia do Jânio e a revolução cubana.

Como é que era a esquerda na época? A esquerda gravitava em torno do Partido Comunista, fundamentalmente. Havia o pessoal do Partido Socialista, que era considerado uma espécie de UDN com preocupações sociais, mas não tinha maior capacidade de mobilização. Então a esquerda tinha basicamente três bandeiras: ser contra o capital estrangeiro, a favor da reforma agrária e a favor da maior participação do estado na economia. Eram basicamente essas três linhas que norteavam a atuação da esquerda.

Jango assumiu no parlamentarismo mas queria derrubar o parlamentarismo. Chegou-se ao cúmulo de organizar um sistema de parlamentarismo em que os ministros tinham que se desencompatibilizar para a eleição. Isso é a negação do parlamentarismo. Eu sou parlamentarista e tive que reagir muito quando às vezes dizem: “Mas aquele parlamentarismo...” Eu digo: “Mas como, aquilo lá nem era parlamentarismo, era alguma outra coisa”.

Jango trabalhou o tempo inteiro para minar o sistema de governo parlamentarista. Aí convocou-se um plebiscito, em janeiro de 1963, com a emenda de um deputado do PSD da Bahia, para derrubar o parlamentarismo. Organizou-se uma coisa chamada Frente de Mobilização Popular, que era integrada pela CGT, que era uma central de trabalhadores, pela UNE, pela Frente Parlamentar Nacionalista e pelo Brizola, que era uma personalidade. Depois o Arraes, que era também uma personalidade, passou a integrar essa frente. Os partidos não tinham uma representação direta, mas lá estava o pessoal do Partido Comunista e havia também os militares nacionalistas da ativa. Imagina que época essa. Isso foi importante para o que se aconteceu depois.

Então, isso conclui os anos 60. E o movimento estudantil?

Eu me lembro que havia uma música da UNE que terminava dizendo: “Viva um por cento do povo do Brasil, o resto vai...” Em vez da palavra esperada, vinha: “...vai ficar sem estudar”. Mas eram mais ou menos 100 mil universitários, devia ter uns 120 mil. Hoje nós temos 1,5 milhão. E aqueles 120 mil eram principalmente de faculdades públicas, que eram poucas. Tirando a PUC, em São Paulo, onde eu fazia mais agitação, eu não me lembro de faculdades privadas. Devia ter, mas era muito pouco. Então, eram cento e poucos mil universitários que na média eram mais politizados. Dirigente estudantil usava gravata, era uma coisa arrumadinha.

Existia a UNE – União Nacional dos Estudantes – que tinha poder de fogo, de mobilização. Em cada estado havia as uniões estaduais de estudantes – as UEEs. Os DCEs, que eram entidades mais fracas. Essa era a estrutura básica. Em geral, no movimento estudantil, quem dominava era o Partido Comunista, através dos seus independentes, mas eram de “independentes do PC”, digamos. O PC do B foi criado em 1960, 1961, não tinha expressão no movimento estudantil. Havia também o pessoal católico, que veio crescendo, agrupado em torno da Juventude Universitária Católica – a JUC.

É muito difícil fazer toda essa síntese, mas no começo dos 60 começou-se a ensaiar a fundação da AP, a Ação Popular. A meu ver – isso pode não ser muito exato, mas no meu ângulo de observação era assim – foi muito importante para isso um padre jesuíta, Henrique Vaz, amigo do Clóvis Carvalho, que eu nunca conheci pessoalmente. E um livro organizado pelo Betinho e pelo Luiz Alberto Gomes de Sousa, que era “O cristianismo hoje”, basicamente girando em torno de um dominicano, uma pessoa extraordinária, que era Tomaz Carbonel.

Foi a partir daí que se decidiu a criação da Ação Popular. Foi feita uma reunião em meados de 1962 e um primeiro congresso, do qual eu participei, em janeiro de 1963. E a Ação Popular rapidamente se tornou hegemônica no movimento estudantil – hegemônica no sentido de ter mais do que a maioria absoluta de eleições etc. De fato, era uma época em que os estudantes em geral tinham um interesse febril por conhecer o Brasil, para entender, por arte, cultura etc. Comparativamente aos dias de hoje, nem se fala. Hoje, com um milhão e meio de estudantes, faculdades pagas, o Brasil mudou, seria impossível o mesmo grau de politização dos universitários.

Minha primeira participação política foi no Grêmio Politécnico. Está aqui, aliás, o candidato que me levou à derrota, que é Oswaldo Dorti. Ele foi candidato à presidência, eu fui da chapa dele, e perdemos vexatoriamente, contra uma chapa da JUC, com o Wander, que já morreu, e que ganhou esmagadoramente, inclusive apoiado pelos conservadores. Quando Wander se revelou fanático da revolução cubana, foi uma crise tremenda na Politécnica.

Eu comecei fazendo teatro e terminei sendo diretor do GTP, que era o Grupo de Teatro da Politécnica. O grupo, tirando o diretor, era muito bom; deu vários artistas profissionais importantes no Brasil. Havia os jograis. E tudo sempre politizadíssimo. Foi lá que eu aprendi “O Operário em Construção”, todas aquelas poesias do Vinícius, que eu não sei se todos conhecem. O Brasilino – “Um dia na vida do Brasilino”. Enfim, era tudo voltado – como dizia a imprensa na época – para a “subversão”. Subversão aberta, reconhecida, clara, explícita, não tinha nada oculto.

Na UEE, fui eleito tipicamente por uma manobra de cúpula. Eu não era um líder estudantil muito conhecido em São Paulo, nem nada parecido. Apenas havia participado ativamente de uma greve. Na Politécnica, fui um dos que mais agitou nesse sentido, uma greve geral, nacional. A JUC – ainda não AP – tinha eleição ganha na UEE, até porque era meio crítica da diretoria. José Carlos Seixas, que foi o maior líder da época, procurava alguém para ser presidente da UEE e não tinha. Então, procura, procura e ele decidiu que seria eu o candidato. Se eu disser isso para ele, ele vai negar, dizer que não é bem assim. Mas o fato é que foi ele quem escolheu. Havia o Bareli e se ele quisesse poderia ter sido, ele tinha títulos, antecedência e tudo, poderia ter sido ele, mas o Bareli não quis, porque já estava no último ano.

Assim, fui eleito para a UEE. De maneira que a minha militância maior já foi como presidente da UEE, em 1962, eu tinha 20 anos.

Qual era o trabalho feito? Era basicamente de organização, que foi uma obsessão minha. Estivesse onde estivesse, tinha que ser uma entidade organizada. As meninas da JUC, por exemplo, não entravam na UEE, porque ficava gente lá até altas horas da noite. Havia um porão onde a turma dormia, não sabiam quem dormia lá, era um ambiente que às vezes parecia – não era de verdade – pouco recomendável. Nós – não é bem a palavra, mas para entender – moralizamos tudo aquilo. E passamos a fazer um trabalho muito forte em São Paulo, na organização do movimento estudantil, nas faculdades, nas UCCEs etc. e na organização de ações.

Fizemos, copiando a UNE, a UEE volante. Copiando a UNE, criamos o centro popular de cultura da UEE e fazíamos agitação pelo interior de São Paulo afora e por todas as faculdades. Todo fim de semana, íamos para o interior com música, aliás de boa qualidade, peças. Íamos fazendo a estação pelo estado afora, mas sempre misturando cultura, mobilização, agitação, a bandeira das reformas dirigidas naquelas três direções que eu apontei e realmente funcionava, era uma coisa que pegava. Criamos até, aqui em São Paulo, uma livraria só para discos, literatura engajada etc. Na época, pus na livraria Sérgio Motta, Adualdo Wogel e Denis, que organizaram. Havia até uma salinha lá do Largo do Paissandú, que, evidentemente, depois do golpe, foi uma grande confusão, porque eram todos livros subversivos, tinha todo um material de ação e politização lá.

Fazíamos noite de cultura popular no Sedes Sapientiae, que era a sede informal do movimento estudantil, com Madre Cristina Freitas. Ela me adotou de uma dupla maneira: como filho e como político. A combinação dela comigo – devo reconhecer – era infernal. Organizávamos coisas incríveis aqui em São Paulo para agitar.

A partir da UEE eu fui para a UNE. A eleição para a UNE, a AP também já tinha eleição garantida. Então a disputa foi dentro da AP. Havia duas alas: a ala mais ortodoxa, que tinha vindo da JUC, e a ala que não tinha vindo da JUC, que era a minha. Eu não tinha vindo da JUC, eu não fui membro da JUC; era considerado linha auxiliar da JUC mas não era integrante. Os ortodoxos eram Betinho, Aldo Arantes, Haroldo Lima, que hoje é dirigente do PC do B, Vinícius Caldeira Brant, que era presidente da UNE. Duarte Pereira não era da linha ortodoxa, porque até ficávamos juntos. Mas o fato é que, por questões estaduais, o candidato que eles queriam não tinha apoio na Bahia, uma confusão. e eu acabei sendo eleito com o apoio da JUC.

É interessante como acontecia o congresso da UNE. No começo definia-se quem era da situação, aí o pessoal se inscrevia, dava 90%. Essa situação se reunia em bancadas e os candidatos tinham que debater na bancada. E ao debater na bancada, havia votação, era uma coisa disputada. Os candidatos foram eu e Sérgio Gaudenzi, que hoje é meu amigo, é baiano. Eu acabei ganhando nesse debate, também com o apoio de estados importantes, como Minas Gerais e Rio Grande do Sul, onde a AP “dulcista” digamos, predominava, na verdade só não predominava em São Paulo. Não que houvesse diferenças práticas, mas nessa hora da escolha, isso acabou pesando.

Formou-se a diretoria, que eram cinco da AP, três independentes e dois do PC. Na primeira reunião da diretoria descobrimos que os três independentes eram do PC. Motivo pelo qual eu disse que o presidente votaria duas vezes: votaria como integrante da executiva e para o desempate. Duarte lembra a encrenca que isso deu, porque era uma coisa absurda, não revelava o que era a correlação de força.

Na UNE, foi um período tremendo. Eu tinha 21 anos quando passei a integrar a Frente de Mobilização Popular. E o fato é que a frente reunia, tomava decisões, fazia e acontecia com, basicamente, Brizola, Arraes e o Partido Comunista. Arraes, mais composto, o pessoal do Partido Comunista e Brizola brigando mais. E nós no meio, porque não nos enquadrávamos, não fechávamos, rigorosamente, com nenhum.

Logo de cara houve uma CPI para investigar a subversão na UNE. Eu passei na CPI umas vinte horas, em dois dias. A transcrição da CPI está nos anais do Congresso. O relator era um deputado ex-integralista, Raimundo Padilha, que depois foi governador do estado do Rio, nomeado pela ditadura. A CPI, evidentemente, não deu nada. Outro dia eu li até... O debate é extremamente divertido. Pelo menos eu consegui fazer Raimundo Padilha perder a paciência e se retirar da Comissão. Como isso aconteceu, eu acho que só lendo dá para entender, mas ele realmente quase enlouqueceu.

Esse era o clima. Era “ouro de Moscou”, era o clima de guerra fria. Hoje, talvez, isso é difícil de entender na proporção total do que significava.

Depois, crises crescentes. Houve uma crise do estado de sítio, em que o João Goulart tentou dar um golpe. Propôs a uma reunião da Frente de Mobilização Popular que topássemos o seguinte esquema: ele ia decretar o estado de sítio, fechar o Congresso, prender o Lacerda e o Ademar – evidentemente para nós era música imaginar prender o Lacerda e Ademar de Barros, mas fomos contra – e depois convocar um plebiscito para dali a três meses. Duarte estava na reunião, Duarte era vice-presidente de assuntos educacionais. Eu não estava porque estava na Bahia, que é terra dele, mas nesse dia eu estava lá. Na verdade, Jango caminhava era para um golpe de estado, supostamente contra a direita. A nossa análise é que num segundo momento viria contra a esquerda, também, e anteciparia um golpe de estado no Brasil, com a nossa cumplicidade.

Nós não só fomos contra, como fomos a rua denunciar isso. Finalmente, Jango voltou atrás. Mas ele voltou atrás não foi por nossa causa, não. A opinião pública da época até pensou que fosse assim. No primeiro momento ficaram todos encantados, mas depois foram repensando o assunto. E depois houve uma reunião da Frente de Mobilização Popular com ele, no apartamento da irmã dele, em que nós dissemos que a nossa decisão era rejeitar a idéia do estado de sítio. Como havia problemas de disputa dentro da frente, eu acabei sendo escolhido para transmitir a ele. E ele disse: “Não, meu jovem, não precisa se preocupar porque eu vou retirar. Agora, eu não vou durar muito no governo”. Depois ele disse para mim: “Olha, tem generais estão loucos atrás de você”.

Foi uma coisa ver o Presidente da República dizendo isso. Naquele contexto, era algo bastante preocupante. Só que ele pediu que nós não anunciássemos que ele ia retirar, e pelo contrário, continuássemos reclamando para retirar. Aí nós começamos reclamar para retirar e deu a idéia de que ele retirou por nossa causa. Não, ele retirou porque ele não teve condições de prender o Lacerda. Ele mandou a Aeronáutica prender o Lacerda e não conseguiu. O famoso dispositivo militar não funcionou. Ele retirou por fraqueza e a partir daí entrou, no nosso entendimento, uma fase de aceleração que iria levar ao golpe.

Eu, pessoalmente, estava convencido de que não havia muita alternativa. Depois, Samuel Wainer, dono do jornal Última Hora, que era íntimo do Jango, me disse no exílio que o Jango estava só querendo usar, nesses últimos meses e sair como herói, para o sítio em São Borjas e ser chamado dali a alguns anos, como foi o Getúlio nos últimos meses, já nessa fase.

Posteriormente, no final, houve uma agitação maior: a assembléia dos marinheiros, a qual nós não comparecemos. A UNE não foi, porque nós achávamos que aquilo era provocação. O que a história veio a mostrar que era provocação. Então, nós não comparecemos pessoalmente a essa assembléia porque nós desconfiávamos muito disso, que era provocação. E finalmente, houve a assembléia do Clube Militar, onde Jango foi falar, e o comício de 13 de março, onde, casualmente, uma diretora de cinema amiga nossa acabou achando um filme em que eu apareço e aparece o meu discurso. Infelizmente não se achou o som, o que dá um caráter surrealista a tudo. Mas é interessante, porque pega bem o clima pré-64, as marchas nas ruas. Era o Leão Richman que fez, o Leão era da UNE. É um documentário simples, mas muito bem filmado.

E aí vem o golpe. Evidentemente, nós não tínhamos força armada, não havia a menor capacidade de reação, não havia nada, era tudo folclore, dizer que a esquerda estava se armando, isso era conversa. Na verdade, o que aconteceu foi o seguinte: a percepção de ameaça ao status quo pelos militares e pela direita foi crescendo em progressão geométrica. Quando a ameaça na verdade crescia em progressão aritmética, muito mais moderadamente do que se imaginava. E era um movimento iminentemente democrático, mas a direita não achava isso. E aquela classe média que desfilou aqui em São Paulo no dia 19 de março. Eu estava em São Paulo porque era o meu aniversário, 19 de março, e na véspera fui a um debate na TV Tupi. Era ao vivo, naquela época não havia videotape, nada disso. Um debate ao vivo no qual estavam presentes um deputado do Partido Comunista, que tinha sido cassado, o Rio Branco Paranhos, Conceição da Costa Neves e Cunha Bueno, que eram os organizadores daquela marcha, que era o golpe.

Fui para a televisão dizer que aquela marcha era uma preparação para o golpe. Imagina, uma marcha à qual compareceu quase São Paulo inteira. Ou seja, eu estava falando muito contra a corrente do que era, naquele momento, a percepção.

Eu me lembro que fui a Belo Horizonte uma vez com Betinho, em um ato no Centro do Professorado – Betinho já não era mais estudante, mas ele uma espécie de meu principal conselheiro, era uma espécie de guru nosso. Fui com ele, não quis ir no avião que iam os políticos, o presidente da UNE não pode ficar andando em avião de político. Por isso nos separamos do grupo, e havia senhoras nas ruas de Belo Horizonte – eu vi isso – ajoelhadas nas calçadas, chorando e com terços, por causa do perigo comunista. Fiquei assustadíssimo com aquilo, uma coisa que não se imaginava que pudesse ser verdadeiro, estava acontecendo. Bem, o fato é que essa classe média deu essa cobertura para o golpe.

Veio o golpe, eu estava no Rio de Janeiro. Acabamos, por circunstâncias que eu já não me lembro, nos separando do conjunto da diretoria. Fiquei eu e o Marcelo Cerqueira. Marcelo era carioca, fala como carioca, pensa como carioca, vive como carioca, tudo que vocês possam imaginar de carioca típico, tinha até estudado em Niterói, embora fosse do Grajaú. E Marcelo disse: “Deixa comigo, eu te guardo aqui”. Bom, aí começamos. Havia um apartamento onde eu ia ficar, do sogro do Tota; a namorada dele, na época, me emprestou a chave. Cheguei lá, Marcelo olhou na porta e viu um sujeito mal encarado, falou: “Não, aqui tem gente”. Resultado, não deu para ficar no apartamento. Marcelo disse: “Vamos à casa de um amigo meu”. Não é que o amigo não estava, tinha viajado ou tinha mudado e a casa tinha sido derrubada?

Jacob Kligerman, que é o atual diretor do INCA, me levou para uma garçoniére que ele tinha ao lado do DOPS. Enfim, de ida em ida, terminamos na embaixada da Bolívia, porque simplesmente era noite, não tinha onde dormir, não tinha para onde ir. Era uma situação curiosa, quer dizer, estar sem lugar, não ter dinheiro e não ter para onde ir. Mas aí já são outros quinhentos, aí já é uma outra história que fica para uma outra vez.

Desculpem um pouco o prolongamento, mas eu não conseguia deixar de situar esses aspectos todos. Acho que isso pode facilitar as outras exposições. Obrigado.

sábado, 1 de setembro de 2001

O programa brasileiro contra a AIDS

José Serra

Texto inédito, setembro de 2001

O sucesso do programa brasileiro de combate à AIDS deve-se a três fatores fundamentais. Primeiro, a continuidade da política governamental nessa área. Segundo, o amplo envolvimento de organizações não-governamentais e de portadores do vírus. Terceiro, a contínua redução de custos do programa, em razão da desospitalização de doentes e da política de medicamentos.

A AIDS é uma das prioridades do Ministério da Saúde. Temos, nessa área, uma importante e bem-sucedida parceria com o Banco Mundial e investimos por ano aproximadamente 500 milhões de dólares em prevenção e assistência, o que nos tem permitido colher resultados positivos inquestionáveis.

Esses recursos são utilizados prioritariamente em ações de prevenção, na garantia dos direitos humanos, no fortalecimento das instituições públicas e privadas que trabalham com AIDS no país e na aquisição e distribuição gratuita de medicamentos anti-retrovirais.

Nossas ações possibilitam o acesso de todos os brasileiros aos meios de prevenção e tratamento, o que inclui preservativos, agulhas, seringas, testes e as terapias disponíveis.

Com essas medidas, conseguimos reverter as expectativas pessimistas do início dos anos 90. De 1,2 milhão de casos projetados para o ano de 2000, estima-se que existam hoje 540 mil pessoas infectadas com o HIV, ou seja, evitamos mais de 600 mil infecções.

As taxas de infecção têm demonstrado tendência de declínio, como foi observado em estudos-sentinelas realizados nas populações de clínicas de doenças sexualmente transmissíveis (DST) e serviços de pronto-socorro, entre os anos de 1997 e 1999. Nas clínicas de DST, a taxa de prevalência foi reduzida de 6,9% para 4,7%; nos serviços de pronto-socorro, de 6,1% para 3,8%.

Outros estudos demonstram a redução das taxas de prevalência entre usuários de drogas injetáveis. No município de Santos, no estado de São Paulo, entre 1992 e 1999, a taxa de prevalência do HIV foi reduzida de 63% para 42%, e em Salvador, no estado da Bahia, entre 1995 e 2000, a taxa foi reduzida de 50% para 7%. Entre gestantes, as taxas de prevalência do HIV estão estabilizadas em torno de 0,6%.

Campanhas de esclarecimento têm sido realizadas sistematicamente, ocorrendo pelo menos quatro a cada ano. Como conseqüência, o uso de preservativos pelos homens, principalmente jovens, vem aumentando de forma consistente. Em 1996, o uso de preservativos entre homens de 16 a 24 anos girava em torno de 41%; em 1999, alcançou uma participação de 63%.

O coeficiente de mortalidade por AIDS no país diminuiu em 50%, entre 1995 e 1999. Na região Sudeste, onde se concentra a epidemia, essa redução foi de aproximadamente 79%. Isto só foi possível porque o Brasil tem garantido o acesso gratuito de todas as pessoas enfermas à terapia anti-retroviral: atualmente, são 100 mil pacientes, número que deverá elevar-se a 115 mil pacientes até o final de 2001.

Os bons resultados não se limitam, porém, à diminuição da mortalidade. Entre os anos de 1997 e 2000, a prevalência de infecções oportunistas foi reduzida em 80% e 234 mil internações foram evitadas, melhorando as condições de vida das pessoas doentes e proporcionando uma economia de cerca de 700 milhões de dólares em assistência médica.

Note-se que a sustentabilidade da política de distribuição gratuita de medicamentos no Brasil só tem sido possível em decorrência da estratégia de investimentos do Ministério da Saúde na produção de medicamentos genéricos e da firme negociação com as indústrias farmacêuticas, o que, entre outros resultados, permitiu os recentes acordos com os laboratórios Merk Sharp & Dohme e Roche, acarretando uma economia anual ao país de aproximadamente 76 milhões de dólares.

A produção de genéricos – dos 12 medicamentos anti-retrovirais distribuídos no país, 7 são produzidos por laboratórios estatais – tem permitido que os gastos com estes medicamentos, que atingiram 303 milhões de dólares em 2000, se mantenham abaixo de 3% do total do orçamento geral do Ministério da Saúde, apesar do aumento anual no número de pacientes tratados.

É importante ressaltar que a redução nos preços dos medicamentos anti-retrovirais produzidos no Brasil foi de 70% entre 1996 e 2000, enquanto a queda nos preços dos medicamentos importados foi de apenas 9%. Entre 1997 e 2000 – antes, portanto, dos últimos acordos com as empresas Merck e Roche –, a produção de genéricos para tratamento de AIDS permitiu uma economia ao país de aproximadamente 250 milhões de dólares.

Se os preços dos medicamentos anti-retrovirais nos Estados Unidos forem tomados como referência, o Brasil economizou 540 milhões de dólares somente no ano passado, o que é suficiente para custear quase dois anos da política de acesso universal e gratuito aos anti-retrovirais no país.

Pela consistência desses resultados, o programa brasileiro é hoje reconhecido internacionalmente e tomado como referência na prevenção e no tratamento da AIDS, avaliação confirmada pela Organização das Nações Unidas em relatório divulgado em julho de 2000, em Genebra.