sexta-feira, 12 de março de 1999

Entrevista a Guido Mantega (10/10)

P.: Um dos temas mais importantes do momento é a globalização. De acordo com Paul Krugman, trata-se de um fenômeno antigo. Você acha isso?

J. Serra: Sim. O processo de integração econômica em escala internacional é antigo e a partir dos grandes descobrimentos passou a ser mais contínuo. Há fases de expansão e de contração, mas a tendência de longo prazo sempre foi a do aprofundamento. Assim, não se trata de um fenômeno novo. Antes da Primeira Guerra Mundial, as frações do investimento externo e do comércio exterior em relação ao PIB, nos países desenvolvidos, não eram muito inferiores às de agora. Mas a fase atual envolve um grande salto em matéria de comunicações e integração financeira. Neste aspecto, o ponto de partida foram as desregulamentações feitas desde o final dos anos sessenta e início dos anos setenta, por Londres e posteriormente por Nova York, que, aliás, coincidiram com o surgimento e a expansão do déficit externo norte-americano.

P.: Quais são os problemas da globalização mais recente?

J. Serra: Até a crise de 1929 as crises nas economias nacionais eram freqüentes e se alastravam internacionalmente mediante ágeis mecanismos de transmissão. A partir dessa crise, os governos passaram a atuar de maneira diferente. A curto prazo, os Bancos Centrais assumiram com menos inibição os seus papéis de lenders of last resort, emprestadores de última instância, e generalizou-se o seguro de crédito, além de legislações mais rigorosas a respeito do sistema bancário. Portanto, foi coibido um mecanismo poderoso de propagação de crises financeiras.

Hoje, na economia internacional, é assombroso o descolamento da esfera financeira do lado real. Devemos ter um trilhão e meio de dólares circulando por dia no mundo, sendo que pelo menos 95 por cento não estão vinculados a comércio ou investimentos. Mais ainda, a integração financeira internacional não está sendo acompanhada pela implantação de mecanismos de controle. Há criação de dinheiro em escala internacional, mas não, como nas economias nacionais, um Banco Central que fixe encaixes obrigatórios e limite o tamanho do multiplicador bancário. Não há uma coordenação suficiente para isso. Não há amplo seguro de crédito em escala internacional. Não há lenders of last resort, embora se pretenda que o FMI exerça cada vez mais esse papel. Mas ele é muito limitado e acaba mais atrapalhando do que ajudando.

Em função disso tudo e do comportamento especulativo dos indivíduos, das empresas, que se mantém geneticamente ao longo dos séculos, o mundo se defronta hoje uma fase complicada que, aliás, mostra o absurdo de se considerar que a economia da globalização tem capacidade de autoregulação. Esse problema apareceu agora na crise deflagrada a partir da queda da Bolsa de Hong Kong.

P.: Como funciona a especulação?

J. Serra: Nada de novo. É na base da cadeia de felicidade. Há um aumento contínuo da demanda por determinados ativos que funciona como espécie de profecia que se autorealiza. Você vai fazendo lucros com base numa entrada crescente de recursos nesse mercado até que alguém mais esperto ou mais instruído, mais realista, sai do jogo para realizar seus ganhos e o esquema é derrubado. Prevalece também, o comportamento de manada: indivíduos inteligentes e racionais, na multidão, passam a ser pouco inteligentes e irracionais. Entram na euforia e disparam na queda, qual gazelas africanas quando um felino chega perto. Há também, como relata muito bem Galbraith, o culto a indivíduos que coordenam esse processo, que são considerados como pessoas de sucesso e viram paradigmas no mundo dos negócios. Até o Carlo Ponzi, um vigarista sócio-fundador da cadeia da felicidade, foi muitíssimo admirado após a Primeira Grande Guerra, nos Estados Unidos, em certos momentos. Então você tem essa combinação. Com diferenças na forma, isso acontece desde a época das tulipas no século XVII até Hong Kong no final deste ano.

P.: Foi a especulação das Tulipas?

J. Serra: No século XVII houve uma especulação desenfreada com tulipas, quando elas chegaram à Europa, mais especialmente à Holanda. Rapidamente se criou um mercado especulativo não só sobre as tulipas mas também sobre as flores futuras: direito sobre flores que iriam nascer. As tulipas foram aumentando de valor e as pessoas entrando nesse mercado. Chegou-se a adquirir uma tulipa, em poder aquisitivo atual, por 10, 20 ou 30 mil dólares, até a cadeia maluca ser derrubada. Há um episódio curioso, relatado num livro publicado em 1841: um marinheiro que estava fazendo uma refeição na casa de um mercador confundiu um botão de tulipa com cebola e comeu-a! Ela valia uns 25 mil dólares atuais. As tulipas e até fatos recentes, como a circunstância de o valor do palácio imperial do Japão e da área que o circunda ter chegado a ser, no início dos noventa, superior ao valor do território da Califórnia, mostram a teimosia desse comportamento recorrente. É uma característica do ser humano econômico, que não aprende. Aprendeu-se a frear a propagação das bolhas que explodem, mas não a formação das bolhas propriamente ditas.

P.: Tendo em vista a liberdade que tem o capital financeiro de transitar, a rapidez que ele tem de se transferir de um lugar a outro e o volume de papéis e de capital financeiro que existe hoje, isto não colocou o Brasil diante de um perigo maior de desestabilização?

J. Serra: A instabilidade provém da elevada dependência da economia afluxo de capitais para o financiamento do balanço de pagamentos. E essa vulnerabilidade foi provocada por fatores endógenos - como a sobrevalorização cambial e os custos para defendê-la - mais do que pela abertura aos capitais. O Chile se abriu para capitais e nem por isso hoje está tão vulnerável, embora, evidentemente, não esteja imune a crises pelo lado comercial.

P.: No artigo “Interpretações sobre o Brasil” o Bresser Pereira disse que há três correntes econômicas nas quais podem ser enquadrados os economistas brasileiros. A corrente social desenvolvimentista, que seria aquela ainda que usa as idéias mais antigas; a corrente neoliberal e a corrente social liberal. Esta última, é aquela que abarca os economistas do governo Fernando Henrique Cardoso e se caracterizaria por afirmar claramente o papel do Estado na área social, ou seja: saúde, educação, trabalho e previdência. E por deixar ao mercado a incumbência de organizar a economia. Você acha que essa análise é correta? Você acha que em alguma medida o Governo FHC está privilegiando o social? Em qual das correntes você se enquadra?

J. Serra: Em certos aspectos eu e o Bresser somos complementares, não substitutivos. Eu não tenho talento e nem gosto para classificações. O Bresser tem. Eu sinto dificuldade de fazer ou avaliar as classificações, seja de me enquadrar em alguma delas.
Como intelectual, tenho a tendência de abordar uma questão sempre problematizando-a . Sempre tendi a passar aos alunos mais problemas do que idéias bem arrumadas, gavetinhas ordenadas num armário bem organizado, junto com as soluções. A única certeza que eu tenho é sobre as minhas dúvidas. Sempre levo em conta, em economia, a presença das “forças escravas do tempo e da ignorância” como dizia o Keynes. Agora, isso não é uma desculpa para deixar a ação de lado. Há uma imagem do Hirschman que, presumo, se aplica bem em mim. Ao contrário de Hamlet, a dúvida me leva à ação.