sexta-feira, 12 de março de 1999

Entrevista a Guido Mantega (3/10)

P.: A economia é uma ciência ou uma arte?

J. Serra: Ela tem um pouco de ciência e sem dúvida bastante de arte. Uma peça como Os Princípios de Ricardo, que é uma obra de economia abstrata, tem muita arte, intuição, criatividade no estabelecimento de premissas e na forma de você desenvolvê-las. Como têm também A Riqueza das Nações e a Teoria Geral. Não, por acaso grandes economistas foram homens de muita cultura e talento, até literário.

P.: Alguns autores importantes verificaram que a dinâmica econômica da sociedade brasileira ou mesmo latino americana era diferente ou seguia um caminho distinto daquele trilhado pelos países capitalistas avançados. Isto não exigia uma teoria específica para aprender essa dinâmica? Essa teoria não foi desenvolvida por vários autores, como, por exemplo, pelo Fernando Henrique, pela Conceição, por você?

J. Serra: Não houve produção de teoria econômica propriamente dita no Brasil. Creio que somente dois economistas fizeram uma contribuição: o Celso Furtado e o Mário Henrique Simonsen. Temos economistas que se se dedicassem inteiramente à vida acadêmica poderiam fazer boas contribuições: o Edmar Bacha, o Pérsio Arida, o Luiz Gonzaga Belluzzo são exemplos, entre outros. No Brasil, não houve inovação teórica mas sim na forma de você analisar a economia com os instrumentos teóricos disponíveis. O esforço de entender a realidade, a partir de um instrumental já disponível, produziu resultados interessantes.

Nos anos sessenta havia insatisfação também com a maneira cepalina de então de analisar o desenvolvimento econômico: uma espécie de literatura dos obstáculos, dos pontos de estrangulamento ou gargalos, que o Roberto Campos gostava de mencionar na época em que ainda acreditava em planejamento. Identificava-se, por exemplo, a estrutura agrária “atrasada”, o comércio exterior dependente da exportação de produtos primários e a distribuição regressiva da renda, que induzia a uma estrutura industrial distorcida. Por sua vez, já nos anos cinqüenta e sessenta, os economistas mais ortodoxos concentravam seu fogo na substituição das importações, na intervenção do Estado, no protecionismo e na sobrevalorização cambial ou no irrealismo das tarifas públicas. Enfim, à direita ou à esquerda, a realidade era analisada a partir da identificação desses e outros obstáculos que deveriam ser removidos. Entendia-se o que estava acontecendo a partir daquilo que se pensava que deveria acontecer.

O Hirschman escreveu sobre isso, argumentando que costumava-se exagerar determinados problemas a fim de se convencer a sociedade da importância de sua resolução. Este era um método usado à esquerda e à direita que atrapalhava o entendimento sobre como as coisas estavam realmente funcionando, qual a lógica do sistema, suas contradições, limites, possibilidades. Sem isso, aliás, não era possível prever ou compreender situações novas e descobrir saídas, sem mencionar o pessimismo exagerado que acabava se disseminando.

Não só o Hirschman, mas intelectuais como o Aníbal Pinto, no Brasil o Antonio Castro, por exemplo, mostravam-se insatisfeitos com as análises estruturalistas dominantes. Foi dessa insatisfação que nasceu um artigo que escrevi, junto com a Conceição Tavares, “Além da Estagnação”, em 1970. Minha contribuição maior foi na primeira parte, que faz a crítica da idéia da estagnação e analisa o papel das reformas do período Campos-Bulhões, as quais foram altamente funcionais para o dinamismo posterior da economia. Esse artigo polemizava com outro do Celso Furtado (“Desenvolvimento e Estagnação na América Latina: Um Enfoque Estruturalista” –1969- ), que exercia bastante influência acadêmica. Partimos da idéia de que você poderia ter um desenvolvimento dinâmico e, junto, piora da distribuição de renda e aprofundamento da heterogeneidade estrutural da economia. Claro que se estas fossem melhores, o desenvolvimento poderia ser mais equilibrado. Isto ninguém discute. Qualquer bom analista vai concordar que a distribuição de renda mais igualitária - além de representar um valor em si - é boa para o crescimento econômico.

P.: Havia alguns autores dessa época, que mostravam que os países que apresentavam maior desigualdade na distribuição de renda tinham mais chance de se desenvolver, porque alcançavam um nível maior de poupança, concentrado nas mãos das classes abastadas.

J. Serra: Uma tese falsa, sem dúvida. Aliás, a partir das análises do Rosenstein-Rodan e do Nurkse, idealizadores das estratégias do desenvolvimento equilibrado, poderia se concluir o contrário.

P.: Hirschman era crítico dessa estratégia, não?

J. Serra: É uma polêmica dos anos cinqüenta, até certo ponto. O Hirschman era considerado o teórico principal do desenvolvimento desequilibrado enquanto o Rosenstein Rodan e o Nurkse eram os teóricos do desenvolvimento equilibrado. Evidentemente, como na maior parte das coisas em economia, ninguém detinha a verdade absoluta.

P.: Alguns dizem que a verdade é como a mulher adúltera: nunca está com um só homem. (risos) Mas qual foi a contribuição do Rosenstein-Rodan?

J. Serra: Ele, como outros fundadores da análise do desenvolvimento, partia de uma indagação: como induzir, nas economias atrasadas, investimentos industriais que permitissem um crescimento sustentado de produção e do emprego? Isto em sociedades com baixas taxas de poupança e onde, devido as falhas de mercado, os preços vigentes não transmitiam todas as informações relevantes aos investidores privados. Além dessa falha havia outra: os empresários tendiam a perceber, ex-ante, uma excessiva inelasticidade da demanda por seus produtos e por isso não se animavam a fazer novos empreendimentos. Era o chamado “pessimismo da elasticidade”, que inibe decisões de investimento.

Nesse contexto qual foi a resposta àquela pergunta? A implantação de um esquema de coordenação dos investimentos, de modo a garantir uma boa complementaridade de demanda entre as diferentes indústrias que fossem se instalando. Uma fábrica iria demandando da outra. Os trabalhadores de uma, enquanto consumidores, comprando das outras. Ou seja, dizia o Rosenstein-Rodan, uma indústria sozinha poderá não ser lucrativa, mas se são instaladas várias ao mesmo tempo, adotando tecnologias com rendimentos crescentes, umas criarão demanda para a produção das outras e todas serão rentáveis. É óbvio que quanto mais pobre fosse a economia mais simples teria de ser o começo do grande impulso. Ou seja, se você vai começar a investir na indústria em um país pobre, começa produzindo sapatos em vez de automóveis. Estamos falando do mundo dos anos quarenta e cinqüenta.

P.: E o Hirschman?

J. Serra: Ele sempre criticou essa visão do Rosenstein-Rodan, que era também do Nurkse, lembrando que a estratégia do desenvolvimento equilibrado supunha uma forte intervenção, embora descentralizada, do Estado, para organizar e planejar os investimentos privados. Seu problema não era doutrinário mas prático: o Estado não tinha capacidade coordenadora para tanto. Mais do que isso, na história econômica dos diferentes países as coisas não tinham acontecido segundo esse padrão de desenvolvimento equilibrado. Pior, as tentativas frustradas de se implementar esse padrão produziriam um grande pessimismo, quando não se conseguisse realizar um esforço de larga escala, cuidadosamente planejado, e em diversas frentes, simultaneamente.

O professor Hirschman acreditava, como acredita até hoje, mais em soluções seqüenciais do que simultâneas para os problemas de industrialização. No entanto, ele sempre lamentou que tais seqüências, na América Latina, quando percebidas, o que nem sempre acontecia ou acontece, eram e são consideradas como fazendo parte de uma industrialização “inferior”, “ineficiente” ou “dependente”. Hirschman argumentava que os desequilíbrios poderiam funcionar, e funcionam, como saudáveis focos de tensões, que terminam mobilizando a política, a capacidade empresarial e a opinião pública e produzindo soluções.

Em resumo, a visão de Rosenstein-Rodan e Nurkse supunha que, devido a descontinuidades e indivisibilidades na economia, o grande impulso seria essencial, a fim de passarmos de uma posição de equilíbrio a outra. Aliás, até para o Schumpeter o desenvolvimento consiste numa transição entre situações de equilíbrio. Veja seu livro mais clássico. Mas para o professor Hirschman as coisas não são assim: o desenvolvimento expressa a transição de uma situação de desequilíbrio a outra. Trata-se de um debate interessante e que não é de todo inútil na atualidade.

P.: Que tipos de desequilíbrios, por exemplo?

J. Serra: Ele costuma lembrar que é possível, dentro de certos limites, identificar racionalidade na existência de obstáculos e gargalos nas diferentes seqüências do processo de crescimento, na utilização de tecnologias intensivas em capital ou mesmo nas pressões sobre “os que decidem” exercidas por problemas de inflação ou balanço de pagamentos.

P.: E a teoria da estagnação?

J. Serra: De certo modo, a teoria estagnacionista, na América Latina, teve seu pano de fundo na visão da teoria do desenvolvimento equilibrado. Partia da idéia de que os países da América Latina haviam feito ou estavam fazendo a substituição de importações: primeiro de bens de consumo não duráveis, depois de bens de consumo duráveis e de bens de capital. Mas, como a distribuição da renda era muito desigual, a base para produzir bens de consumo não duráveis era limitada. Assim, antes que se chegasse a um tamanho de mercado que permitisse uma boa escala de produção, o dinamismo da demanda havia se esgotado. Saltava-se, então, para os bens de consumo duráveis. Mas, neste caso, a demanda era fruto de uma distribuição concentrada da renda e o mercado, limitado, pois não se partia de uma base ampla de consumo básico. E, evidentemente, a indústria de bens de capital não podia se desenvolver adequadamente porque os bens de consumo não se havia expandido suficientemente. Alguns autores combinaram esses problemas de demanda com os que decorreram - na sua visão - de um alto coeficiente de capital/trabalho dos novos setores e, portanto, rendimentos decrescentes.