sexta-feira, 12 de março de 1999

Entrevista a Guido Mantega (2/10)

P.: Ele desenvolve a teoria do desenvolvimento equilibrado.

J. Serra: Sim. O outro é do Arthur Lewis “O Desenvolvimento Econômico com Oferta Ilimitada de Mão-de-Obra” (1954). Esses livros e artigos foram fundamentais para minha compreensão inicial das questões do desenvolvimento. Nesse início embebi-me de toda a produção da época dourada das análises do desenvolvimento, que corresponde aos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial até o final dos cinqüenta: os círculos viciosos e virtuosos do Nurkse, os encadeamentos para trás e para frente (linkages) do Hirschman, os pólos de crescimento, o grande impulso (big push) do Rosenstein-Rodan, a causação circular acumulativa do Myrdal, a polêmica do desenvolvimento equilibrado versus desequilibrado, etc. Bons tempos. Embora divergissem entre si, todas elas, em essência, ofereciam uma perspectiva otimista para o futuro. Consideravam que, mediante uma estratégia adequada, seria possível a muitos países trilhar o caminho do bom desenvolvimento. Todas supunham que sempre há opções para uma intervenção inteligente na economia. Eu penso assim até hoje.

Aproveitei muito também cinco livros de história: do Henri Pirenne sobre a Idade Média, do Paul Mantoux sobre a revolução industrial, do Gerchenkron sobre o atraso econômico na perspectiva histórica, do Maurice Dobb sobre a evolução histórica do capitalismo e do Karl Polanyi sobre a grande transformação que trouxe, ao mundo, a economia de mercado. Aliás, eu tive um excelente professor de história econômica, o Rondo Cameron. Não tanto pelas aulas que dava, pois não podia dar aulas em inglês e quase não falava espanhol mas pela bibliografia que nos induzia a ler. Ainda hoje recomendo o livro dele A Concise Economic History of the World, na edição revisada de 1997.

P.: O que fez você até chegar ao doutorado?

J. Serra: Em 1970 fui contratado pela CEPAL, mas não pude continuar nela por muito tempo devido ao veto da delegação brasileira nas Nações Unidas, em Nova York. O Itamaraty era de uma eficiência impecável na marcação sobre brasileiros exilados. Nessa época, o Chile passava a viver uma fase tumultuada, depois da vitória do Allende. A radicalização tomou conta da Universidade e chegou até os jardins de infância. Minha filha, com 2 ou 3 anos de idade, aprendia musiquinhas contra ou a favor do Allende. A Faculdade de Economia quebrou-se em duas, uma de orientação “socialista” e outra “capitalista”. Meus cursos foram adotados pelas duas. O Instituto de Economia explodiu. Uma coisa era você ler O Capital num curso de história do pensamento econômico, outra era ler quase exclusivamente textos de autores marxistas, deixando de lado matérias como comércio internacional, teoria e política monetária, etc. Foi uma pena.

Em 1973 durante alguns meses assessorei, como consultor, o ministro da Fazenda do governo de Allende em política tributária e na elaboração de um plano de estabilização e pude acompanhar a experiência chilena muito de perto. Fiquei muito marcado por ela. Obrigou-me a rever muitas convicções. Exatamente por ser uma crise daquele tamanho, permitia olhar os fenômenos econômicos com uma profundidade que não se tem quando a economia funciona mais ou menos normalmente. Fiquei intolerante em relação à tolerância com duas variáveis chaves do comportamento da economia a curto prazo: a superinflação e a sobrevalorização cambial.

P.: O que lhe ficou da experiência chilena?

J. Serra: No Chile, houve estatização dos bancos, desapropriação de quase todas as grandes empresas do comércio exterior e da indústria e reforma agrária. No campo, não ficou propriedade privada acima de 40 hectares. Mas a experiência socialista chilena naufragou rapidamente antes de tudo por causa da política de curto prazo. Um aumento brutal de salários no primeiro ano, restrição externa, descontrole monetário, congelamento de preços e do câmbio. Inicialmente, você teve um crescimento e uma redistribuição de renda extraordinários e, depois, o reino do mercado negro.

P.: E havia o desequilíbrio das contas externas.

J. Serra: A demanda doméstica foi vertiginosamente para cima. O Chile tinha uma economia pouco verticalizada e esse aumento da demanda pressionou excepcionalmente as importações. O que adiantava ter alguma capacidade ociosa em alguns setores? Com o aumento de salários elevou-se fortemente a demanda de alimentos. Paralelamente, a aceleração da reforma agrária contribuiu para desorganizar a produção agrícola a curto prazo. A nacionalização das minas de cobre trouxe problemas no abastecimento de insumos e peças de reposição. Havia milhares de itens e a produção começou a cair. O quadro econômico tornou-se inadministrável.

P: Você teve problemas políticos com o golpe?

J. Serra: Houve muita perseguição a estrangeiros. Eu era funcionário internacional, com imunidades diplomáticas. Mas mesmo assim fui detido no aeroporto, um mês depois do golpe, quando ia para o exterior. Nunca soube ao certo o motivo. Encaminhado ao Estádio do Chile, acabei sendo solto no dia seguinte por decisão de um major que não conheci e que foi julgado e fuzilado dois dias depois. Disseram que eu tinha de voltar para ser interrogado. Não sabia sobre o quê e não voltei.

P.: E depois? Recorreu à Embaixada do Brasil?

J. Serra: Nem pensar, pois ela tinha participado da conspiração para o golpe e colaborava com a repressão da junta militar. Como sou filho de italianos, ao sair do Estádio fui para a Embaixada da Itália, mas a ditadura não me concedeu salvo conduto logo e fiquei retido lá durante seis meses. Ao sair, tinha decidido fazer o doutorado na Inglaterra ou nos Estados Unidos.

P.: Estava previsto você ir para lá?

J. Serra: Sim. Eu já tinha decidido bem antes do golpe do Pinochet. Em janeiro de 1973, eu havia escrito uma carta para o Plínio de Arruda Sampaio, que trabalhava no BID, em Washington, dizendo que o golpe não passaria de setembro. De fato, aconteceu em 11 de setembro. Bastava contemplar a evolução da inflação, a queda da produção, o mercado negro as conspirações em marcha e lembrar que havia uma data nacional, 18 de setembro, quando os militares chilenos deveriam prestar homenagem e obediência ao presidente da República. Eu tinha certeza que, naquele ano, não iriam fazer isso.

Minha intenção era estudar em Cambridge, na Inglaterra. O Celso Furtado, que era professor lá, me hospedou e orientou. Mas acabei decidindo ir para os Estados Unidos porque o doutorado era mais organizado e poderia ser feito em menos tempo. Eu preferia Yale, onde tinha sido admitido, mas decidi ir para Cornell, onde a bolsa era melhor. Fiz os créditos no primeiro ano, a tese no segundo ano e dali fui para o Institute for Advanced Study de Princeton, como membro-visitante e lá fiquei dois anos. Em termos de vida acadêmica tranqüila é o maior paraíso da terra.

P.: Em Princeton você escreveu um artigo com o Fernando Henrique.

J. Serra: Numa época que o Fernando Henrique passou por lá escrevemos juntos um artigo crítico sobre a dependência, chamado “As desventuras da dialética da dependência”.

P.: Como se deu sua integração na vida acadêmica no Brasil?

J. Serra: Vim para a Unicamp, em 1978, onde lecionei na graduação e na pós graduação.

P.: Que cursos?

J. Serra: Economia Brasileira, História do Pensamento Econômico, Macroeconomia, Teorias do Ciclo Econômico. Fiquei também como pesquisador do Cebrap, onde organizei um grupo de economistas jovens, meus ex-alunos, com a participação dos irmãos Mendonça de Barros. Paralelamente, passei a escrever bastante para jornais, principalmente a Folha de S. Paulo, onde fui também editorialista. Mas a vida acadêmica em economia no Brasil, a partir dos oitenta, foi se tornando mais rarefeita, face aos altos salários do setor privado, principalmente financeiro e, em alguns casos, como o meu, à participação política. Em 1983 licenciei-me da Unicamp para assumir a Secretaria de Economia e Planejamento de São Paulo e a partir daí não mais voltei à Universidade. De todo modo, não me desliguei inteiramente da atividade intelectual, pois continuei lendo, escrevendo algumas coisas, participando de seminários e, na vida pública, envolvido com reflexões e debates sobre economia aplicada, principalmente nas áreas de tributação e orçamento, onde acabei virando especialista, além de inflação, política industrial, etc. Eu bem que gostaria de voltar à vida acadêmica por um par de anos, mas sei que não é uma utopia realista ou do possível ...

P.: Qual é o papel da matemática e da econometria na pesquisa econômica?

J. Serra: São instrumentos muito úteis para subsidiar, não para substituir, o domínio da teoria nem muito menos a intuição. Às vezes, o uso e abuso da matemática termina mitigando a reflexão teórica e dificultando a análise econômica aplicada, quando não esconde idéias triviais. Nem todos têm a lucidez manifestada pelo Paul Krugman, quando lembra que os modelos formais são úteis somente como metáfora da realidade. Mas embora eu tivesse uma formação razoável em matemática, melhor que a dos economistas em geral, acabei não recorrendo muito a ela, não por falta de gosto, mas em função ambientes acadêmicos onde vivi, que não estimulavam muito esse caminho. Na verdade, gostaria de ter usado mais matemática e econometria no meu trabalho como economista.