sexta-feira, 12 de março de 1999

Entrevista a Guido Mantega (1/10)

Publicada no livro de Guido Mantega e José Marcio Rego, Conversas com Economistas Brasileiros II, Editora 34, 1999


JOSÉ SERRA (1942)

Filho de imigrantes italianos radicados na Mooca, José Serra entrou para o curso de engenharia na Escola Politécnica da USP, onde começou sua militância política no movimento estudantil. Foi um dos fundadores da Ação Popular (AP) e em 1964, com 21 anos, era presidente da UNE, quando teve de deixar o país, perseguido pelos militares. Assim começou um longo período de exílio pela América Latina e Estados Unidos, onde Serra completaria sua formação. Primeiro estudou no Chile, na Escolatina, depois lecionou no ILPES que era agregado a CEPAL. A essa altura Serra já se distanciara da engenharia e trilhava os caminhos da economia. Fez o mestrado em economia no Chile e escreveu o importante trabalho “Além da Estagnação”, com Maria da Conceição Tavares e o artigo “O Perverso Milagre Brasileiro”, que publicou com pseudônimo. Depois que Alende caiu em 1973, Serra foi fazer o doutorado em Cornell. Em 1976 já era membro-visitante do Institute of Advanced Study em Princenton, onde ficou dois anos e escreveu “As desventuras da dialética da dependência” juntamente com Fernando Henrique Cardoso, que estava passando um tempo naquele Instituto.

De volta ao Brasil em 1978, Serra foi lecionar no Instituto de Economia da UNICAMP, onde ficou até 1983, quando licenciou-se para assumir a Secretaria de Economia e Planejamento do governo Montoro, o primeiro eleito em São Paulo, após o regime de exceção. As atividades políticas não separaram Serra da produção teórica e da discussão acadêmica. Nesse ínterim ele publicou vários artigos e coordenou vários livros, dos quais destacamos “A reconcentração da renda: justificações, explicações, dúvidas” de 1973, “As desventuras do economicismo: três teses equivocadas sobre autoritarismo e desenvolvimento”, de 1977,“Ciclos e Mudanças Estruturais na Economia Brasileira do Após Guerra” (1981), que saiu em dois números da Revista Economia Política e organizou o livro América Latina – Ensaios de Interpretação Econômica, de 1976, entre outros.

Em 1985 Serra coordenou o programa econômico do candidato Tancredo Neves e em 1986 foi eleito deputado federal por São Paulo sendo reeleito em 1990. Em 1994 elegeu-se senador pelo mesmo Estado. Em 1995 assumiu o ministério do Planejamento do governo Fernando Henrique Cardoso, onde permaneceu até 1996. Concedeu esta entrevista como senador da República em dezembro de 1997, antes de assumir o ministério da Saúde do primeiro governo FHC.


ENTREVISTA COM JOSÉ SERRA

FORMAÇÃO

P.: Como você se interessou por economia?

J. Serra: Eu estudava na Escola Politécnica da USP e a partir do terceiro ano conclui que tinha mais interesse e motivação por matemática e física ou por economia do que pela construção de máquinas ou cálculo de estruturas. Decidi, então, que depois de terminar a faculdade iria fazer pós-graduação em economia. Estávamos no fim do ciclo expansivo do Plano de Metas e vivíamos uma fase de instabilidade política e econômica.. Eu sentia cada vez mais a curiosidade e a necessidade de entender o que estava acontecendo com a economia brasileira. Minha participação no movimento estudantil também me estimulava nessa direção. O golpe de 64 resolveu o assunto antecipadamente, pois tive de interromper a faculdade e deixar o Brasil, exilado. Só voltei em 1978. Ganhei uma bolsa do Instituto de Economia e Humanismo, do Padre Lebret, na França, e foi lá que assisti os primeiros cursos e li os primeiros livros sobre temas econômicos.

P.: Você saiu do Brasil porque era presidente da UNE, não é? Militava na Ação Popular?

J. Serra: Eu era presidente da UNE na época do golpe e fui bastante perseguido. Tive de deixar o Brasil com 22 anos recém feitos. Quanto à AP, eu havia sido um dos seus fundadores.

P.: Para onde você foi?

J. Serra: Para a Bolívia, onde fiquei um mês, e daí para a França. Voltei ao Brasil no começo de 1965, mas não tive condições de permanecer. Eu estava em S. Paulo, clandestino, no primeiro aniversário do golpe, em 1965, quando o general Costa e Silva, então ministro da Guerra, fez um discurso dizendo que “felizmente, tinha acabado no Brasil a época em que estudantes malcriados ofendiam generais da República nos comícios”. Ele estava se referindo a mim. Em função disso e da prisão de muitos dos meus colegas da AP naqueles dias, tive de sair do Brasil novamente e decidi então formar-me em economia no exterior. Só pude voltar em 1978 depois de prescrever uma absurda condenação de um tribunal militar.

P.: Por que escolheu o Chile? Que cursos você freqüentou?

J. Serra: Naquele momento Santiago era o centro intelectual da região, onde muitos professores e pesquisadores latinoamericanos trabalhavam em entidades da ONU, da OEA e da UNESCO. Comecei assistindo algumas matérias na Escola de Pós-Graduação em Economia da Universidade do Chile, que era chamada Escolatina. Paralelamente, dava aulas de matemática para manter-me. Depois, fui contratado pelo ILPES - Instituto Latino Americano de Planejamento Econômico Social - que era agregado à CEPAL, como professor de matemática para economistas e, ao mesmo tempo, admitido no próprio curso do Instituto. O ILPES foi um instituto que o Raul Prebish criou depois que deixou a secretaria da CEPAL, mais voltado para a docência e a pesquisa.

P.: Como era o curso do ILPES?

J. Serra: Durava um ano e era dividido em 3 partes. A primeira continha introduções à análise econômica, ao desenvolvimento econômico, à sociologia do desenvolvimento e à estatística. A segunda parte, contabilidade nacional, programação econômica e economia de projetos. Na terceira, havia matérias de especialização. Naquele ano eu escolhi o que era disponível: programação para o desenvolvimento industrial. O outro curso disponível era sobre planejamento orçamentário, que não me atraia. Mal sabia que, na vida, acabaria envolvido em questões orçamentárias, até hoje. Aproveitei muito o curso, inclusive na especialidade, onde obtive a classificação mais alta da turma.

P: Depois você ingressou na universidade?

J. Serra: Estudei dia e noite, durante meses, Macro, Micro, Matemática e Estatística e passei num exame equivalente à conclusão de uma faculdade de graduação, sendo então admitido formalmente na Escolatina, um excelente curso de pós-graduação. Enquanto cursava a Escolatina ganhei um concurso para assistente na Escola de Economia da Universidade do Chile, na cadeira de Desenvolvimento Econômico. A Escolatina tinha bons professores de teoria ou história econômica, inclusive norte-americanos, que vinham fazer seu ano sabático.

P.: E depois de terminar a Escolatina?

J. Serra: Aos melhores alunos eram oferecidas bolsas da Fundação Rockefeller para fazer o doutorado nos Estados Unidos. Fiz um grande esforço para credenciar-me à uma bolsa, obtendo as notas mais altas, mas justamente a partir daquele ano o programa foi cancelado. Obtive então o mestrado em Ciências Econômicas, fui contratado pelo Instituto de Economia da Universidade como pesquisador e continuei dando aulas na pós-graduação sobre Desenvolvimento Econômico da América Latina e História do Pensamento Econômico, curso do qual assumi a cadeira na Escola de Economia. É a melhor disciplina para você lecionar. Você não para de aprender e, por força de ficar sempre lidando com história das teorias, fica sempre mais prevenido contra dogmas e modismos.

P.: Nessa época, quais foram os livros de economia que marcaram mais a sua formação?

J. Serra: O primeiro que eu li foi Formação Econômica do Brasil, do Celso Furtado. Este livro foi um marco de referência para todos os trabalhos de história econômica posteriores e é o principal ensaio nesse campo já feito por um latino-americano. Li também um outro livro do Celso, que até hoje considero o melhor dele: Desenvolvimento e Subdesenvolvimento (1961), uma coletânea de artigos que não foi mais republicada.

Outro livro que me impactou, que li meticulosamente, foi o Princípios de Economia Política e Tributação de David Ricardo, numa edição francesa de meados do século passado, comentada pelo Jean Baptiste Say, veja só. É um livro teórico, de natureza dedutiva e rigoroso. A Teoria Geral do Emprego do Keynes também marcou muito minha formação. Quando eu comecei estudar o texto de macroeconomia adotado era o do Gardner Ackley, e logo fiquei motivado para ler Keynes. Li também quase toda a obra econômica de Marx ainda nos anos sessenta, preparado pelo livro do Paul Sweezy Teoria do Desenvolvimento Capitalista, que até hoje é a melhor introdução à economia marxista.

P.: Textos originais, como A Riqueza das Nações de Adam Smith, O Capital de Marx e mesmo a Teoria Geral do Keynes não são livros chatos, difíceis de entender?

J. Serra: Não se você ler devagar e tiver com quem trocar idéias. Outro autor fundamental para mim foi o Schumpeter com sua Teoria do Desenvolvimento Econômico, além do Capitalismo, Socialismo e Democracia e da História da Análise Econômica, que eu adotava nos meus cursos de História do Pensamento Econômico, utilizando uma edição brasileira que o Carlos Lessa - meu querido amigo - me dera de presente. Trata-se de uma obra inacabada, de três volumes, de uma erudição incomparável. Outros livros importantes foram Estratégia do Desenvolvimento Econômico do Albert Hirschman, e Problemas de Formação de Capital nos Países Subdesenvolvidos do Ragnar Nurkse, além de dois artigos, um do Paul Rosenstein Rodan Problemas de Industrialização da Europa Oriental e Sul-Oriental (1943)....